O desafio da África é mudar a imagem do continente

Opciones conversou com o embaixador da República de Djibuti, Nasser Mohamed Ousbo, por ocasião do 62º aniversário da Organização para a Unidade Africana

Autor: Hedelberto López Branch 

     Por ocasião do 62º aniversário da Organização para a Unidade Africana(OUA), Opciones conversou com o embaixador da República de Djibuti, Nasser Mohamed Ousbo.— Quais são, a seu ver, os principais desafios que o continente africano enfrenta, a 62 anos da fundação da Organização da Unidade Africana, hoje União Africana, e quais são as perspectivas do continente?— A África tem um passado colonial muito recente, continuado por uma forma de neocolonialismo que manteve um domínio absoluto sobre sua riqueza intelectual e material, mas não vou repetir todos os males gerados pelos dolorosos contextos do tráfico de escravos e da colonização.

     Nas últimas décadas, porém, a África viu um raio de esperança em seus esforços para curar suas feridas e reafirmar sua soberania. O desafio agora é mudar a imagem de um continente pobre para a de um continente rico, com todo o potencial criativo para influir no caminho do mundo.

     Estão sendo travadas batalhas ideológicas, tanto dentro dos Estados como nos organismos intergovernamentais, para recuperar a soberania sobre os recursos naturais e sua transformação em escala local, assim como sobre o comércio internacional, o crescimento econômico e a melhora do Produto Interno Bruto.

     A União Africana, como prometeu o novo Presidente da Comissão, tem um papel impulsor por desempenhar, no desenvolvimento harmonioso das zonas urbanas e rurais, condição essencial para reduzir a pobreza e a precariedade que as populações sofrem.

     Em seu discurso de posse, Mahmoud Ali Youssouf destacou que a África não pode garantir sua própria segurança, nem reativar suas economias, se não tiver autonomia financeira, o que significa que os Estados devem estar em condições de financiar seus próprios programas de paz e desenvolvimento, e de dar esperança aos jovens que atualmente engrossam as fileiras das rebeliões e das facções terroristas”.— Como a União Africana pode fortalecer-se ainda mais em programas sociais e econômicos? Serão cumpridas as metas traçadas pela ONU para 2030, ou ainda existem dificuldades para consegui-lo?— A Agenda e os objetivos de desenvolvimento das Nações Unidas nem sempre se cumprem. Todos estão com um considerável atraso. O continente africano está formado por 55 Estados soberanos, cada um com seus próprios objetivos políticos e um potencial desigual.Embora seja verdade que o êxito deve ser compartilhado, as batalhas são travadas por cada país, a União Africana é apenas a sede do diálogo dos chefes de Estado e, como tal, suas responsabilidades se limitam a coordenar o consenso alcançado nas Assembleias Gerais. O continente só pode colher os frutos e benefícios do progresso nacional. Deste ponto de vista, as coisas começam a se mover de Norte a Sul, de Leste a Oeste, o nível de consciência aumenta, e os governos parecem decididos a assentar as bases de sua soberania nacional, particularmente arrancando das garras das multinacionais e das forças imperialistas, a exploração e gestão dos recursos naturais, cujos benefícios primeiro serão melhorados e depois utilizados para e pelo povo.

     Para atualizar-se, a África necessita dominar a ciência e a tecnologia, o elo perdido na arquitetura do desenvolvimento sustentável.— Enquanto decano do corpo diplomático, como avalia as relações Cuba-África, e em especial com o Djibuti? Existem condições especiais para continuar incrementando-as?— As relações entre Cuba e a África têm origens distantes e bases concretas.

     As forças revolucionárias cubanas, sob a direção de Fidel Castro, participaram da luta pela independência da África, e por isso o povo cubano pagou o mesmo preço de sangue que os povos africanos em luta. Desde o período pós-colonial, a revolução cubana continuou apoiando os primeiros governos que herdaram as ruínas do colonialismo.

     Os primeiros médicos, enfermeiros e professores chegaram muito rápido, para aliviar as necessidades das populações vulneráveis e analfabetas que saíam das trevas da colonização. Essa cooperação é tão antiga quanto a OUA e a Revolução Cubana, pois celebra mais de meio século de apoio ao desenvolvimento.

     Hoje somam-se às brigadas internacionalistas, associações institucionais, técnicas e científicas baseadas no intercâmbio de informação e conhecimentos, e a coprodução de bens e serviços, especialmente nos âmbitos acadêmico, farmacêutico, biomédico, agrícola, hidráulico e tecnológico, entre outras prioridades. Isso converte Cuba em um dos principais sócios de desenvolvimento da África, com novas e interessantes perspectivas para ambas as partes.

     Como já declararam em várias ocasiões, os governos africanos não aceitarão nenhuma pressão exterior que vise interferir na cooperação com Cuba. Porque esta cooperação, que salva vidas, é antes de tudo benéfica para os cidadãos africanos e para o fortalecimento das instituições locais.

     Além disso, na frente da luta contra o bloqueio econômico, comercial e financeiro contra Cuba, a África tem uma posição clara, unânime e decidida, para assegurar o triunfo da justiça a que têm direito este grande povo e lindo país.

     Para os africanos, apoiar Cuba em sua luta política pela soberania é uma forma de honrar essa colossal dívida moral com o povo revolucionário cubano e seus líderes históricos. Obrigado por permitir que me dirija ao povo cubano, nesse 62º Aniversário da União Africana.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Publicado em Opciones em 22 de maio de 2025

Tradução: Marcia Choueri

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