A ameaça nazi da OTAN contra a Rússia

(segunda parte)

Publicado por Cuba en Resumen em 3-7-2025

Por Hedelberto López Blanch(*)

     Como se detalhou na primeira parte deste artigo, dezenas de altos oficiais se reintegraram ao exército alemão e depois à OTAN.

     Entre os oficiais nazis de patentes mais altas incorporados ao exército, estavam Hans Speidel e Adolf Heusinger, que também se alistaram, como seus dois primeiros tenentes-generais. Speidel tornou-se chefe do Departamento de Forças Combinadas do Ministério de Defesa e serviu como um dos principais assessores militares do chanceler Konrad Adenauer (posto ocupado depois por Heusinger).

     Este último, a quem Hitler havia se referido como “meu fiel e leal colaborador”, tornou-se o oficial militar em serviço de patente mais alta da Alemanha Ocidental, o equivalente ao chefe do Estado-maior Conjunto dos Estados Unidos. Também foi chefe de avaliação da Organização Gehlen, como agente perito da CIA.

     Speidel e Heusinger foram os primeiros generais de quatro estrelas da Alemanha Ocidental e ambos desempenharam papel-chave na OTAN.

     O escritor e pesquisador Gabriel Rockhill explica que, em 1954, Speidel foi designado como principal “negociador sobre a questão da entrada da Alemanha na OTAN”. Supervisionou a integração das Forças Armadas da Alemanha Ocidental na OTAN e foi nomeado chefe das Forças Terrestres Aliadas na Europa Central.

Isto significava que Speidel era “o comandante operacionalsuperior de todas as divisões alemãs, estadunidenses, francesas e britânicas designadas à Região Central da OTAN”.

Ou seja, um oficial nazi de alta patente, diretamente envolvido na fracassada guerra de eliminação contra a URSS, havia sido nomeado o comandante terrestre superior da OTAN, caso se deflagrasse a guerra com os países do Pacto de Varsóvia.

     Antes do final da SGM, Speidel foi promovido a tenente-general, em janeiro de 1944, e recebeu a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro, por seu serviço na guerra antissoviética.

     Por seu lado, Heusinger se transformou no “oficial militar superior e assessor militar chefe do secretário-geral” da OTAN, servindo como presidente do Comité Militar, o nível mais alto na esfera não civil da organização. Recebeu a Cruz de Ferro e a Cruz Nazi ao Mérito de Guerra, outorgadas por Hitler, e anos depois, a medalha Legião de Mérito entregue pelos Estados Unidos.

     Segundo a folha informativa de 1961 do senador estadunidense Wayne Morse, Heusinger era, em 1941, o “chefe de operações do estado-maior de Hitler” e “responsável pelo planejamento militar de todas as invasões nazis a partir de então”. Dirigia os esquadrões especiais de extermínio (Einsatzgruppen), que tinham a tarefa de liquidar “todos os judeus e outros grupos”.

     Em suas memórias, Heusinger explicou seu ponto de vista sobre esses assuntos com notável franqueza: “Sempre havia sido minha opinião pessoal que o tratamento da população civil e os métodos de guerra antipartisana (de extermínio) davam aos mais altos líderes políticos e militares uma oportunidade para realizar seus planos, ou seja, o extermínio sistemático do eslavismo e do judaísmo”.

     As posições de liderança atribuídas a Speidel e Heusinger demonstram claramente, desde o princípio, os vínculos da OTAN com o fascismo, e a lista de alemães nazis envolvidos em suas atividades é extremamente ampla.

     Assim se soube que o coronel da Wehrmacht durante o Terceiro Reich Albert Schnez chegou a ser chefe do Estado-maior durante o governo do social-democrata Willy Brandt e organizou, segundo informação desclassificada em 2014, um exército secreto de 40 mil veteranos da SGM, que estariam preparados para defender a Alemanha de uma suposta e eventual invasão soviética.

     A organização de Schnez tinha respaldo financeiro da Organização Gehlen e também mantinha contatos com outras duas redes nazis, ambas financiadas secretamente pelos Estados Unidos: o Technischer Dienst (Serviço Técnico) e a Liga da Juventude Alemã.

     Os exércitos de retaguarda que os líderes nazis estabeleceram na Alemanha Ocidental formavam parte de uma rede europeia ocidental de milícias fascistas secretas criadas pela CIA, MI6 da Grã Bretanha e OTAN. Essas organizações recrutavam nazis, fascistas e outros anticomunistas de extrema direita, proporcionavam-lhes armas e munições e os equipavam completamente para fazer a guerra. Uma técnica utilizada por esses grupos até os nossos dias tem sido a de realizar ataques terroristas de falsa bandeira contra a população civil, e culpar os comunistas, para justificar a repressão e conseguir apoio para os chamados governos da lei e da ordem.

     Na lista de nazis dentro da OTAN, destacam-se outros:

– Johannes Steinhoff, conhecido piloto de aviação militar, chefe do Estado-maior e comandante das Forças Aéreas Aliadas da Europa Central entre 1965 e 1966, chefe do Estado-maior da Luftwaffe Bundeswehr entre 1966 e 1970 e presidente do Comitê Militar da OTAN, de 1971 a 1974.

– Johann von Kielmansegg, coronel no gabinete-geral do Alto Comando do exército nazi, comandou vários regimentos no terreno. Após a guerra, ingressou na Armada alemã, ascendeu a general de brigada e chegou aos mais altos cargos da OTAN, como comandante em chefe das forças especiais na Europa Central em 1967.

– Ernst Ferber, tenente-coronel no Estado-maior da Wehrmacht, condecorado com a Cruz de Ferro. Comandante em chefe das Forças Aliadas da Europa Central da OTAN entre 1973 e 1975.

– Karl Schnell, major e primeiro-oficial do Estado-maior, recebeu por seus “méritos” a Cruz de Ferro. Substituiu o general Ferber como comandante em chefe das Forças Aliadas da Europa Central da OTAN entre 1975 e 1977.

– Franz Joseph Schulze, tenente a serviço das Forças Aéreas nazis como chefe de um regimento. Recebeu a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro. Após o pós- guerra, foi general e depois comandante em chefe das Forças Aliadas da Europa Central da OTAN entre 1977 e 1979.

– Ferdinand von Senger und Etterlin, tenente na invasão nazi à URSS. Participou na Batalha de Stalingrado e obteve a Cruz Alemã de Ouro. Próximo ao final da guerra, foi pessoal adjunto do Alto Comando da Armada do Terceiro Reich. Comandou depois vários batalhões de tanques e chegou a ser general e comandante em chefe das Forças Aliadas da Europa Central da OTAN entre 1979 e 1983.

Walter Krüger, general nazi nas forças paramilitares Waffen-SS. Colaborou com a OTAN em tarefas de inteligência na Europa Oriental.

– Friedrich Foertsch, oficial de alta patente no Estado-maior da Wehrmacht durante a SGM, depois da guerra foi general inspetor da Bundeswehr, onde contribuiu para as políticas de defesa da Alemanha Ocidental dentro da OTAN.

– Heinrich Trettner, general da Luftwaffe, força aérea alemã, durante o Terceiro Reich. Depois se uniu à Bundeswehr, onde desempenhou funções na estrutura militar da OTAN contra os soviéticos.

     A inserção de oficiais nazis foi uma estratégia majoritariamente dos Estados Unidos e Grã Bretanha, para reintegrar a República Federal da Alemanha ao bloco ocidental, como um aliado-chave contra a União Soviética.


(*) Jornalista cubano. Escreve para o diário Juventud Rebelde e o semanário Opciones. É o autor de “La Emigración cubana en Estados Unidos”, “Historias Secretas de Médicos Cubanos en África” e “Miami, dinero sucio”, entre outros.

Ilustração: Adán Iglesias Toledo.

Tradução: Marcia Choueri

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