“Turpiales” de abril

A imagem mostra o ex-presidente Hugo Chávez com o  turpial, pássaro nacional da Venezuela.

Publicado em Cuba Periodistas* em 31/out/2025

Por Katiusca Blanco Castiñeira**

   Agora que os mísseis, os encouraçados, os aviões e a morte acossam, desde o império do norte, a Venezuela Bolivariana, pilar de sonhos soberanos em Nossa América, busco no tempo uma crônica escrita em 2004, depois de percorrer os lendários caminhos das planícies próximas ao Arauca, subir os montes andinos por Mérida, atravessar o Orinoco revolto e navegar pelo Delta Amacuro, escalar as dunas de Coro ou regressar aos cerros de Caracas desde a profunda Barinas. Os anos não desmoronam vontade de povo, inspiração, luta:

  Uma nuvem de turpiales desceu das veredinhas sinuosas e enlameadas dos cerros, serpenteando entre os telhados queixosos e frágeis onde os conteúdos ancestrais se desbordaram de uma vez, em torrente exaltada, a caminho de Miraflores.

  A multidão desafiava a ditadura fascista. Não era possível silenciar tanta presença, calar tanta gente; desaparecer, perder, alienar, conter tal avalanche; não valiam as baionetas, nem os jornais, nem as televisões. O Presidente não havia renunciado, tinha sido sequestrado: essa verdade estava na rua, descia dos cerros, e nada podia interceptá-la; aflorava nas vozes e nos rostos que interpelavam ferozmente a lente das câmeras, resistiam às prisões, impugnavam as falsas versões e as notícias de imprensa, pintavam os muros, interrompiam o tráfego nas avenidas, alçavam a fotografia do Presidente com a faixa tricolor e voltavam à verdade com a bússola da alma e a camisa aberta às balas, com uma clareza inusitada, que, de tão iluminada, quase ofuscava.

  Parecia que um desses persistentes e obstinados temporais das indóceis regiões planas ou das selvas do Orinoco caía sobre as ruas de Caracas, e era a maré de gente que exigia o regresso de Chávez, o retorno do sonho de refazer o país, refundá-lo, idear e elevar a manhã dos filhos, o destino. Foi o profundo, o que emergiu, e era lava o que chovia dos agrestes territórios de barro, onde a gente tinha ido, no dizer do Comandante, “conseguindo no caminho os espinhos… e os rios que corriam rápidos sobre as cascatas das piedras e as histórias e as lendas da avó Rosa Inés, que falava do cabo Zamora e da cavalaria federal…”, e tudo isso estava no pensamento ou na memória, no sentido profundo das pessoas e era, talvez, o que alimentava o ímpeto daquele dia, de restituir o bolivariano na República, de jogar para trás, pela primeira vez na história do Continente, o classicamente estabelecido nos manuais dos oligarcas nacionais, das embaixadas ianques e dos militares traidores. Sucedeu o que nunca antes. Los fuzis não reduziram a multidão ao medo e ao espanto, e a inundação foi incontrolável, e na mesma corrente estavam os próprios descendentes da cavalaria federal: os militares constitucionalistas, leais ao seu Presidente. E Chávez voltou como chuva, como lume de Abril, e o “por enquanto” do 11 deste mês, teve um 13 para a poesia, porque a Revolução sempre é poesia e maravilhosa realidade, que eclode em sensibilidades como a do inspirado William Tarek Saab, desde Maisanta, com seus versos ao 4 de fevereiro: 

“…norte dos sublevados aparece

 enquanto esperamos um novo respiro

 outra canção que apaixone e nos levante

 aferrados ao nada com cavilhas na boca

 Rodeados/ por enquanto/ por enquanto…”,


 até desembocar caudalosos em sua mesma certeza, que dedica a Douglas Saab: 

“Pobre rosa caída

 em ti nem pétalas nem orvalho

 estrondo semeado nos céus

 não poderá

 apagar

 o sangue derramado

 não poderá

 contra o nosso sonho

 de verdor encomendado

 ainda com a rosa fechada: 

 Nunca poderão”.

(Publicada originalmente em Juventud Rebelde).

Imagem: Ilustração de Isis de Lázaro.

Tradução: Marcia Choueri

*https://www.cubaperiodistas.cu/2025/10/turpiales-de-abril/

**(Havana, 1964). Jornalista e ensaísta. Foi correspondente de guerra em Angola e redatora do diário Granma durante mais de dez anos. É autora de livros como Ángel, la raíz gallega de Fidel, Fidel Castro Ruz, guerrillero del tiempo: Conversaciones con el líder histórico de la Revolución Cubana, e Todo el tiempo de los cedros: Paisaje familiar de Fidel Castro Ruz.

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