A crise energética afeta de forma desigual as pessoas com menos recursos.
Foto: Marcelino Vázquez Hernández/ Cubadebate
Trecho de artigo publicado em Cubadebate, em 22 de fevereiro de 2026
Por: Oscar Figueredo Reinaldo, Thalía Fuentes Puebla, Yilena Héctor Rodríguez, Marcelino Vázquez Hernández, Frank Martínez Rivero, Verónica Alemán Cruz, Aniela Dumas Rojas, Inés María Castro Machado, Abel Padrón Padilla, Enrique González Díaz (Enro)
Viver em Cuba é, cada vez mais, um exercício diário de resistência e adaptação. As rotinas são reorganizadas, os percursos alongam-se e as prioridades são redefinidas ao ritmo de uma realidade marcada pela escassez.
Há mais de seis décadas, o bloqueio imposto pelos Estados Unidos condiciona o desenvolvimento económico e social do país. Nos últimos anos, o seu endurecimento — particularmente durante a administração de Donald Trump — aprofundou o cerco sobre setores estratégicos como o de energia, tornando mais frágil o acesso ao combustível e encarecendo cada detalhe da vida quotidiana.
As consequências não se resumem apenas a números macroeconómicos ou relatórios oficiais. Sentem-se na espera interminável por um ônibus, no aumento dos preços, no lixo que demora a ser recolhido, no esforço adicional necessário para sustentar uma família. Manifestam-se também na resposta coletiva: na solidariedade espontânea, nas soluções comunitárias e na vontade de resistir sem abdicar da dignidade.
A crise energética afeta de forma desigual as pessoas com menos recursos.
Foto: Marcelino Vázquez Hernández/ Cubadebate
Aos 67 anos, Juan Pablo avança lentamente sob o sol de fevereiro, um sol que nestes dias se assemelha ao do verão, de julho ou agosto. Na faixa costeira — como ele próprio diz — nem a pele morena protege dos vapores que se levanta por estarem tão perto do mar. O calor aperta e o cansaço é notório a cada passo.
Reformado das Forças Armadas Revolucionárias e readmitido numa empresa localizada no município de Cerro, Juan Pablo é um dos muitos habitantes do leste de Havana afetados pela escassez de transporte público e pelo encarecimento acelerado das opções privadas após as limitações impostas pelo cerco energético.
“Imagina, para quem vive do outro lado do túnel, esta situação coloca-nos numa condição muito difícil. A única entrada e saída é o túnel, e com o pouco transporte disponível, quase a única alternativa decente que nos resta, diante da falta de ônibus, é o ciclo-ônibus (ônibus para transporte de biciletas e motos), que não foi feito para nós”, comenta um pouco ofegante pela caminhada forçada.
Residente na comunidade Camilo Cienfuegos há mais de uma década, reconhece que o transporte para esta zona nunca foi fácil, exceto durante um período em que foram incorporados novos ônibus. Hoje, no entanto, a situação é sensivelmente pior.
“Sabemos que é pela situação do país e pelo bloqueio de combustível dos americanos, mas vida continua e é preciso abrir caminho entre as dificuldades”, resume, resignado.
Na calçada oposta, quase em fila indiana, uma linha irregular de motas, bicicletas e pessoas perde-se entre a vegetação, todos à espera do próximo ônibus “salvador”, que pode demorar horas ou, simplesmente, não aparecer.
“São de 400 a 500 pesos só para atravessar o túnel”, diz indignado Rafael, um jovem de 22 anos que precisava urgentemente chegar à casa da sogra. “À noite é muito pior: podem cobrar mil pesos, e o que fazer? Muitos motoristas queixam-se de que não há combustível e, se aparece, dizem que está por mais de 4 000 pesos o litro. Isto é insustentável”.
Em meio a este panorama complexo, também surgem soluções parciais. Os chamados “trencitos” — microônibus elétricos — tornaram-se uma alternativa para alguns trajetos.
“Rapaz, são ótimos”, comenta uma senhora instantes antes de embarcar num destes veículos, que há alguns meses conecta o Hospital Naval a outros pontos do município, o de maior extensão territorial de Havana.
Mas o impacto da crise energética não se limita ao transporte. Outro dos problemas reconhecidos pelos moradores desta comunidade da capital é o acúmulo de lixo. O bairro, declarado Monumento Nacional há alguns anos e tradicionalmente caracterizado pela sua limpeza, parece ter abandonado a imagem cuidada de outros tempos.
Queima de lixo em Camilo Cienfuegos.
Foto: Cubadebate
“O problema do lixo é sem cabimento. Este bairro sempre foi muito limpo, quase uma exceção dentro da sujeira que por vezes se vê em outras zonas de Havana. Mas parece que os limites do bairro foram ultrapassados”, lamenta Magalis, residente do local há mais de 30 anos.
“O Camilo sempre foi um bairro modelo, limpo, cuidado. Já não é mais assim. E o pior não é só não recolherem o lixo, mas sim que agora a ‘solução’ dos serviços municipais é atear fogo aos resíduos que ficam fora dos contentores. Quem foi que pensou nisso? Além do humo, que é insuportável, queimam-se os jardins, as áreas verdes da comunidade e até os próprios contêineres. É uma barbaridade”.
A falta de combustível também repercute diretamente nos preços dos alimentos. Do outro lado da “cidade”, como dizem os moradores, os custos parecem inflar-se como o balão de Matías Pérez (balonista que desapareceu no séc. XIX).
“Há duas semanas o óleo estava 920 pesos, depois desapareceu e agora voltou custando 1.200. O ovo subiu para 2.700 e assim acontece com muitos produtos”, queixa-se Miriam, enquanto mostra uma sacola quase vazia que evidencia o alto custo de vida.
A situação agrava-se quando, em muitos estabelecimentos, só se aceita dinheiro vivo ou se impõem restrições ao uso de meios de pagamento digitais. Algumas micro e pequenas empresas limitam a percentagem de compra por transferência, enquanto vendedores do mercado agrícola asseguram que não podem operar sem dinheiro em espécie, porque — dizem — o banco não lhes permite sacar dinheiro para pagar os produtores que lhes fornecem mercadoria.
“O pão tem-se mantido mais ou menos estável, mas o frango subiu para 450 pesos a libra em alguns lugares, o esparguete para 500, o purê de tomate para 500 e o creme dental para 400”, enumera Ernesto na saída de um pequeno mercado privado.
Foto: Abel Padrón Padilla/ Cubadebate.
“ É verdade que os mercados privados são caros, mas onde vamos comprar alimentos? Na bodega (mercados estatais) quase não há nada e a única loja do bairro vende em dólares. Tudo se torna muito difícil. A minha mãe é diabética e precisa de leite em pó; aqui, o mais barato custa mais de seis dólares”,
No entanto, em meio à escassez, ao calor e às carências, também floresce a solidariedade. Ramón, motorista de um veículo particular, conta que sempre que vai para Havana leva pelo menos duas pessoas, que pega no ponto de embarque próximo ao Hospital Naval.
“Não se pode ignorar”, diz. “Hoje você ajuda, amanhã é sua vez de ser ajudado.
Histórias como as de Juan Pablo, Rafael, Magalis ou Miriam revelam como o bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos transcende números macroeconómicos e sanções abstratas para se instalar no quotidiano: no preço de uma passagem, em uma caminhada sob o sol, no lixo que se acumula ou a sacola que regressa meio vazia à casa. Neste cenário adverso, os cubanos continuam procurando saídas, reinventando-se dia após dia e apoiando-se, muitas vezes, uns nos outros.
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Tradução: Lina Noronha
Artigo completo, em espanhol: http://www.cubadebate.cu/especiales/2026/02/22/vivir-bajo-el-signo-del-bloqueo-es-una-historia-real-fotos/

