Foto: Abel Padrón Padilla/ Cubadebate.
Trecho de artigo publicado em Cubadebate, em 22 de fevereiro de 2026
Por: Oscar Figueredo Reinaldo, Thalía Fuentes Puebla, Yilena Héctor Rodríguez, Marcelino Vázquez Hernández, Frank Martínez Rivero, Verónica Alemán Cruz, Aniela Dumas Rojas, Inés María Castro Machado, Abel Padrón Padilla, Enrique González Díaz (Enro)
A estrada que leva ao Cacahual está hoje irreconhecível. Esta via, outrora protagonista do trânsito que liga Santiago de las Vegas — município havanense de Boyeros — ao resto da capital, apresenta um cenário diferente.
O asfalto, antes testemunha do vai e vem incessante de camiões, ônibus e automóveis particulares, reflete agora um silêncio desconfortável, interrompido apenas pela passagem esporádica de algum veículo de aluguel ou pelo pedalear lento de quem não tem outra alternativa para se deslocar.
A marca do bloqueio petrolífero promovido pela administração Trump é uma realidade palpável que afeta diretamente o bolso, altera rotinas e redefine a vida quotidiana. Aqui, o cerco é sentido em cada esquina, em cada rosto, em cada conversa.
No bairro de Villanueva, María e Fidel compartilham mais do que o teto e a mesa. Este casal de empreendedores conseguiu, com esforço e a contribuição decisiva do filho mais velho — emigrado há anos para os Estados Unidos —, manter um pequeno negócio que é o sustento da família. A preocupação se vê nos olhos de María enquanto ela organiza algumas mercadorias no balcão. “Já não podemos continuar comprando combustível no mercado negro — exclama, impotente —. O preço chegou aos seis mil pesos. Imagina, se eu passasse esse custo para os produtos que vendo, se tornariam inacessíveis para todo cubano.” No entanto, reconhece que a sua sorte tem sido diferente da de outros trabalhadores autônomos do bairro: o filho, consciente das dificuldades, conseguiu comprar no exterior um triciclo elétrico que hoje lhes permite abastecer o estoque sem depender do combustível racionado nem do mercado ilegal.
Fidel, homem de fala pausada, avisa: “Eu entendo a situação do país, entendo o bloqueio, entendo todas as limitações. Mas o que não entendo, e não posso aceitar, é que nos exijam preços tabelados para alguns produtos e depois o próprio Estado viole isso vendendo nas lojas em dólares a preços muito mais altos.” Seu protesto aponta diretamente a uma contradição: “O frango, o leite, o óleo, as massas… tudo isso é vendido nas lojas de referência em dólares a preços que, ao câmbio oficial do Banco Central, ultrapassam o estabelecido na resolução.”
No centro de Santiago de las Vegas, a vida transcorre de outra forma. Nas áreas próximas ao terminal de ônibus, o fenómeno adquire uma dimensão distinta. Onde antes se aglomeravam dezenas de veículos à procura de passageiros, hoje apenas dois ou três carros permanecem estacionados, com os proprietários encostados ao capô, esperando pacientemente que alguém possa pagar pela viagem.
Tatiana aguarda dentro de um almendrón com a pequena filha ao colo. No seu rosto não há sinal de tranquilidade. “Uma viagem até Havana custa hoje mil pesos — diz ela —. Se alguém me tivesse dito há um mês que isto aconteceria, eu simplesmente não teria acreditado. Pagar quatrocentos pesos já me parecia um absurdo. Mas pago porque a minha filha tem consulta no William Soler” (hospital cardiológico pediátrico, em Havana).
O diálogo com vários transeuntes revela uma preocupação que ultrapassa o aspecto econômico. Josefa, enfermeira aposentada que dedicou quarenta anos ao sistema de saúde pública, caminha lentamente pela calçada levando a neta Odette pela mão. “Três vezes por semana a levava para ter aulas de piano em Altahabana (bairro do município de Boyeros) — explica —. A menina tem talento, de fato. O professor diz que ela progride muito rápido.”
No entanto, as circunstâncias obrigaram a interromper as aulas. “Já não consigo, custa 700 pesos por pessoa até à Ponte de 100. Isso é mais do que recebo de pensão por mês.” Com voz carregada de angústia acrescenta: “Preocupa-me muito o futuro da minha neta. Preocupa-me o futuro de todas as crianças que estão sendo afetadas por esta medida absurda. Que tipo de bloqueio é este que nega a uma menina a possibilidade de estudar?”
O aumento exponencial do preço do combustível gerou uma reação em cadeia nesta zona do sul de Havana. Os preços dos produtos de primeira necessidade dispararam de forma abrupta, desafiando qualquer lógica econômica além da oferta e procura em condições de escassez extrema. Um pacote de frango de dez libras chega hoje aos 4800 pesos. O óleo, quando se encontra, varia entre 1600 e 1800. O leite em pó, imprescindível para a alimentação infantil, ultrapassa os 2800 pesos por pacote de um quilo.
Curiosamente, os produtos agrícolas mantêm alguma estabilidade nos preços. Os camponeses das zonas vizinhas continuam trazendo suas colheitas, oferecendo tubérculos, legumes, verduras e frutas a preços que, embora elevados, não registaram o crescimento exponencial de outros artigos. Contudo, a subida já afeta outros setores: os serviços de impressão e o conserto de celulares encareceram significativamente; academias e barbearias também aumentaram os preços, embora aparentemente não dependam do combustível para funcionarem normalmente.
Tradução: Lina Noronha
Artigo completo, em espanhol: http://www.cubadebate.cu/especiales/2026/02/22/vivir-bajo-el-signo-del-bloqueo-es-una-historia-real-fotos/

