Raúl Castro, um homem da cultura e das ideias

Publicado originalmente, em espanhol, por Cubadebate*, em 2 de junho de 2026.

Por: Abel González Santamaría**

   O general de Exército Raúl Castro Ruz é hoje um símbolo da dignidade da nação cubana, construído por mais de sete décadas de intensa luta. Desde a época de estudante no curso de Administração, da Faculdade de Direito da Universidade de Havana, seguiu o mesmo caminho percorrido por seu irmão Fidel e tornou-se um ativista do movimento estudantil. Foi líder dos jovens quando, em abril de 1952, realizaram o enterro simbólico da constituição democrática menosprezada pela ditadura de Batista.

   Militou na Juventude Socialista e participou da organização e da realização do Congresso Nacional Martiano em Defesa dos Direitos dos Jovens Cubanos e da primeira Marcha das Tochas, em homenagem ao centenário do nascimento de Martí. Além disso, presidiu a delegação cubana que participou da Conferência Internacional sobre os Direitos da Juventude, realizada em Viena, Áustria, e trabalhou no Comitê Internacional Preparatório do Quarto Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, em Bucareste, Romênia.

   Na Universidade de Havana, Raúl fez parte de um importante grupo de líderes e intelectuais que, inspirados no legado martiano, contribuíram para a forja da consciência nacional durante o século XX. Ao regressar a Cuba, com 22 anos recém-completados, incorporou-se à luta política, participou do assalto ao Quartel Moncada, do Granma e da Sierra Maestra, onde foi promovido a Comandante e abriu a II Frente Oriental “Frank País”.

   Sob sua direção, foram construídas e colocadas em funcionamento mais de 400 escolas, instalados 20 hospitais e realizados dois congressos, um camponês e outro operário. Deu atenção especial, com a criação do Departamento de Educação, à educação dos combatentes guerrilheiros e à criação de salas de aula nas quais, pela primeira vez, as crianças da serra veriam a luz do ensino.

   Após o triunfo da Revolução em 1959, priorizou o progresso cultural do Exército Rebelde e ocupou importantes responsabilidades no Partido, no Estado e no Governo. Foi sempre o segundo durante o comando de Fidel, a quem estava irmanado não apenas por laços familiares, mas também por uma comunhão de ideias. Desde muito cedo destacou-se como estadista e intelectual, representando Cuba em diversos fóruns internacionais.

   Poucos meses após a fundação da Casa de las Américas, pronunciou uma importante conferência, em 11 de setembro de 1959. Com voz firme e enérgica, transmitiu uma mensagem transcendental aos povos latino-americanos e caribenhos, que vem sendo cumprida desde então: “Não deixaremos que a luz da Revolução Cubana se apague para os povos irmãos de Nossa América”.

   Três dias depois, falou no ato de entrega do acampamento militar de Columbia ao Ministério da Educação para transformá-lo em Cidade Liberdade. Cumpria assim um dos pontos do Programa do Moncada ao converter os quartéis em escolas, como disse Raúl naquele dia: “Cidade Liberdade para o florescimento da cultura sobre a barbárie”.

   Seu carisma, jovialidade e conhecimento da história pátria e da universal, conecta-se a todo tipo de público. No livro “Um grão de milho”, o Comandante em Chefe Fidel Castro Ruz o descreveu magistralmente: “todo aquele que o conhece na intimidade, se dá conta de seu humanismo, de sua qualidade e de seus sentimentos; surpreendem-se com um Raúl que lhes foi pintado como belicoso, agressivo, duro, quando veem os sentimentos de amizade, de carinho e afeto que é capaz de ter pelas pessoas. E tem sido um grande formador e um grande educador”.

   Por isso, é considerado um Professor de várias gerações de cubanos, a quem inculcou valores com seu exemplo. Dedicou a maior parte de sua vida à preparação da defesa do país nas Forças Armadas Revolucionárias (FAR), onde foi Ministro durante quase 49 anos. Simultaneamente, ocupou-se da formação cultural e patriótica dos mais jovens. Junto a Fidel, Camilo e Che, fundou, em 10 de abril de 1959, a revista Verde Olivo, órgão oficial das FAR e primeiro meio de imprensa criado pela Revolução após chegar ao poder.

   Também impulsionou o conhecimento da história por meio da pequena e da grande tela, com a criação, em 27 de dezembro de 1961, da Seção Fílmica do Departamento de Instrução das FAR, que se transformou nos Estúdios de Cinema das FAR (ECIFAR) e posteriormente nos Estúdios Cinematográficos e de Televisão das FAR (ECITV-FAR), que se tornou uma sólida instituição com um cinejornal semanal e uma produção permanente de reportagens e documentários, muitos deles premiados em eventos nacionais e internacionais.

   O general de Exército é um promotor da arte, da literatura e da história em todo o país. Dentro das FAR, impulsionou a criação da Banda de Música do Estado-Maior-Geral, do Centro de Estudos de História Militar, da Sala Universal, do Conjunto Artístico e dos Conjuntos Artísticos Integrais de Montanha, um fator determinante na vida intelectual e cultural das comunidades serranas, por meio da música, da dança, do teatro, das artes plásticas e da literatura.

   Junto de sua companheira de vida, a heroína Vilma Espín Guillois, manteve uma relação muito especial com personalidades da cultura. Os dois estavam unidos por seus profundos conhecimentos da história universal e de Cuba, pelas preocupações em preservar a memória histórica e o patrimônio da nação e pelo apreço à música, ao teatro, às artes plásticas, ao balé, ao cinema e à literatura. Gostava de ouvir a voz doce de Vilma quando cantava temas tradicionais cubanos, especialmente “El Mambí”, do poeta e compositor Luis Casas Romero.

   Com as digitais de Raúl e do historiador de Havana, Eusebio Leal Spengler, nasceu o parque histórico Morro-Cabaña. Em 1992, foram abertos o Museu de Armas, o Museu da Comandância do Che e um museu monográfico. Resgatou também uma das tradições mais arraigadas de Havana: o canhonaço das nove. Esses espaços se converteram em um dos principais locais da cultura cubana e acolhem numerosas atividades, como a Feira Internacional do Livro.

   No final do século XX e início do XXI, durante cinco anos, realizaram-se nos 169 municípios do país as “Tribunas Abertas da Revolução”. Ocorreram grandes concentrações populares para denunciar as agressões imperialistas contra Cuba. Combinavam-se os discursos com arte nacional e local, por meio da música popular, da dança moderna, da poesia coral, do repente e das artes plásticas. Raúl estava ali todos os sábados, dialogando com os moradores e compactuando com os expoentes da cultura.

   Quando o Comandante em Chefe adoeceu gravemente, em 2006, assumindo a direção do país, o general de Exército manteve o rumo socialista da Revolução, seu estreito vínculo com o povo e o ativismo de Cuba nas relações internacionais. Sua voz foi ouvida com respeito e simpatia em diversos fóruns. Trabalhou sem descanso para promover uma cultura de paz e o respeito ao direito internacional.

   Em suas intervenções, reiterou à Comunidade Internacional, inclusive aos Estados Unidos, a necessidade de “aprender a arte de conviver, de forma civilizada, com nossas diferenças”. Uma das ocasiões em que brilhou como estadista foi quando atuou como anfitrião da II Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), realizada em Havana em 2014, e fez a leitura da histórica Proclamação da América Latina como zona de paz, assinada pelos 33 países da região.

   Ao assumir as principais responsabilidades do Partido, do Estado e do Governo, Raúl deu continuidade ao ideário de Fidel de que a cultura é a primeira coisa que se deve salvar e estreitou o vínculo com a vanguarda do pensamento e da arte no país. Participou ativamente dos VII e VIII Congressos da União de Escritores e Artistas de Cuba (UNEAC), onde promoveu o diálogo e a diversidade de opiniões ao considerar que “das maiores discrepâncias sairiam as melhores soluções”. A organização lhe conferiu a condição de Membro Emérito da UNEAC e o selo comemorativo pelos 60 anos de sua fundação.

   Nós, membros da UNEAC sentimos a proximidade e a confiança de Raúl, que consolidou a convicção de que o diálogo com os criadores fortalece a cultura e a identidade nacional. Há dez anos, pelo 55º aniversário da União, enviou uma mensagem de felicitação e recordou como, em situações complexas que exigiam defender o país, não foram descuidadas as tarefas estratégicas da educação e da cultura.

   Quando a direção histórica da Revolução deu lugar, em 2021, a uma nova geração de dirigentes nascidos após o triunfo de 1959, Raúl, como carinhosamente o chama nosso povo, continuou contribuindo com sua visão e experiência para as decisões estratégicas da nação. Ao longo dos últimos 70 anos, demonstrou sua valentia diante das agressões do império, seu otimismo diante das dificuldades, domínio da história, elevada cultura, sensibilidade humana, empenho na preparação da defesa do país, na formação das novas gerações, nas tarefas organizativas da nação, sua cubania, sua contribuição para a paz da região, sua brilhante atuação política e diplomática e, sobretudo, sua fidelidade a Fidel.

   Às vésperas do 95º aniversário do General de Exército, neste 3 de junho de 2026, soam os tambores da guerra por parte do governo dos Estados Unidos contra a nação cubana, que além disso tenta macular sua figura. Subestimam a estirpe do nosso povo e a estatura moral de Raúl, o líder da Revolução, o Herói da República de Cuba, um símbolo de dignidade e resistência, um homem da cultura e das ideias.

*http://www.cubadebate.cu/especiales/2026/06/02/raul-un-hombre-de-la-cultura-y-las-ideas/

**Escritor e ensaísta. Doutor em Ciências Políticas. Prêmio UNEAC de Literatura 2022. Primeiro vice-presidente da Associação de Escritores da UNEAC.

Tradução: Lina Noronha

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