GRACIAS, CUBA!

Por: Marcia Choueri

17 de junho de 2026

          Este é um artigo de caráter pessoal. Para quem não me conhece, meu nome é Marcia Choueri, sou brasileira e vivi em Cuba por oito anos.

            Hoje venho confessar publicamente que tenho muitas dívidas com a Ilha, acho que não vou ter tempo de pagar todas, e quero falar de uma especificamente, que sempre guardei, por temer não ser compreendida.

            Vivi parte da infância, toda a adolescência e juventude na cidade de São Paulo, sob uma ditadura cívico-militar. Naquele tempo, dizíamos simplesmente militar, porque era a face mais evidente e tenebrosa do governo que se instalou por um golpe no Brasil em 1964. Depois é que entendemos a parte civil envolvida, e que até hoje não foi julgada, aliás, como tampouco os militares.

            Mas não estávamos sós, havia muitas ditaduras militares no Cone Sul, fomentadas e patrocinadas pelos EUA, sob o signo perverso da Operação Condor. Numa rápida busca, olha o que encontrei: “A Operação Condor foi uma campanha de repressão política e terror de Estado levada a cabo pelas ditaduras de direita do Cone Sul, com o apoio dos Estados Unidos. A operação envolveu operações de inteligência e assassinato de opositores políticos exilados em outros países.” E veja que até a escolha do nome foi perversa: a ave condor-dos-andes é um símbolo de liberdade em muitos de nossos países.

            Bem, como resultado dessa experiência coletiva, formei um conceito de que os militares eram uma classe vende-pátria, composta de torturadores e assassinos frios, que atiravam nossos corpos de aviões ou nos enterravam em valas comuns, como a de Perus. E que existiam apenas para reprimir os movimentos patrióticos e de libertação. Aqui mesmo, no Brasil, temos numerosos exemplos disso, ao longo da história

            No ano 2000, já com mais de quarenta anos, fui morar em Cuba. Não cabe aqui explicar como aconteceu, o que importa é que fui, e lá vivi e convivi por quatro anos, naquele primeiro período. Depois, fui novamente em 2019 e fiquei até 2023.*

            E aqui entra a dívida:

            Em Cuba aprendi que existem militares latino-americanos patriotas, que sabem que seu país é seu povo, por isso, é por ele que lutam. E respeitam. E cuidam.

            Aprendi que os militares de Cuba lutam não apenas por seu próprio país, mas também pela libertação de outros povos, porque aprenderam com Martí que pátria é humanidade. Assim foi na guerra de independência de Angola e na luta do povo sul-africano contra o sistema de apartheid. 

            Em Cuba, aprendi por que devíamos apoiar e defender o governo de Chávez na Venezuela e sua revolução bolivariana.

            E que os nossos militares vende-pátria que nos aterrorizaram haviam sido formados pelos EUA na infame Escola das Américas e sua doutrina da segurança nacional, que, na verdade, só trata da segurança econômica do imperialismo.

            Mais uma rápida pesquisa, para ilustrar: “A Escola das Américas (School of the Americas) foi uma instituição do Departamento de Defesa dos Estados Unidos fundada em 1946, no Panamá. Durante a Guerra Fria, treinou mais de 60.000 militares latino-americanos sob a Doutrina de Segurança Nacional. A instituição ganhou notoriedade histórica por instruir oficiais e soldados de diversos países latino-americanos (incluindo o Brasil) em técnicas de contrainformação, interrogatório, guerra psicológica e contrainsurgência.”

            (Parêntesis, para não perder a oportunidade: os EUA estão aplicando essa mesma prática, agora formando juízes e promotores de nossos países para praticar lawfare. Foi lá que se ideou a infame operação lava-jato, os processos contra Rafael Correa e Cristina Kirchner, e tantos outros. E, quando não conseguem dessa maneira, usam o recurso das falsas acusações para justificar invasões e sequestro de políticos, inclusive presidentes, de outros países, como Noriega, no Panamá, e Maduro, na Venezuela. A acusação de terrorismo ao PCC e CV prepara ações desse tipo.)

            Por que decidi falar disso agora: a tentativa totalmente ilegal do governo dos EUA de acusar de vários crimes o ex-presidente cubano Raúl Castro, por um fato ocorrido 30 anos atrás: a derrubada de uma avioneta do grupo contrarrevolucionário sediado em Miami “Hermanos al Rescate”. Naquele momento, ele era o ministro da Defesa.

            E por que afirmo que, além de ilegal, a acusação é totalmente cínica?

            Primeiro: o fato ocorreu em Cuba, no espaço aéreo do país. A avioneta havia invadido várias vezes, de forma hostil, o espaço aéreo cubano. Se crime houvesse – e não há – só poderia ser julgado em Cuba, embora o pretensamente onipotente governo dos EUA não aceite isso. Segundo: o governo de Cuba já havia informado as instituições estadunidenses de que esses voos tinham origem em território norte-americano, a eles cabia impedi-los. Nenhuma providência foi tomada. Finalmente, depois de vários avisos, ante a insistência dos invasores, tomou-se a decisão drástica e exemplar, para demonstrar que Cuba não admitiria tais atos, exercendo, assim, o legítimo direito de defender o país e, sobretudo, seu povo.

            Esta é a dívida que espero resgatar parcialmente com este artigo: Cuba me ensinou e me deu esperança de que, um dia, as forças armadas brasileiras também aprendam a defender o Brasil e a servir ao nosso povo.

*Se você quiser saber mais da minha vida em Cuba – histórias reais bem divertidas – escute os podcasts do canal Coisas de Cuba no YouTube https://www.youtube.com/@coisasdecuba7794 .

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