Por que publicamos este artigo?
- O autor alerta para um aspecto a que os brasileiros não costumamos dar muita atenção, talvez justamente pelo distanciamento linguístico e pela visão imposta culturalmente, de que nossa referência é europeia e estadunidense.
- Ter consciência do tamanho do Brasil e de sua importância internacional traz junto o senso de responsabilidade pelo que acontece em nosso continente.
- O caminho que o Brasil tomar nas eleições deste ano influirá diretamente sobre a possibilidade de sucesso da política neocolonial dos Estados Unidos sobre a América Latina.
- Ecoar as palavras de Lula sobre soberania mostra a preocupação dos nossos vizinhos com essa realidade.
Publicado originalmente por Cuba en Resumen, em 30 de agosto de 2026.
Por Hedelberto López Blanch*
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve muita clareza ao compreender o perigo que paira sobre seu país e provavelmente sobre toda a América Latina, se os Estados Unidos, por meio da extrema direita brasileira, conseguir vencer as eleições presidenciais marcadas para 4 de outubro.
O mandatário reafirmou, durante uma visita ao Centro Industrial Nuclear de Aramar, a importância de preservar a soberania nacional como pilar fundamental do país e defendeu a cooperação internacional e o fortalecimento do multilateralismo, em meio a ameaças e tensões diplomáticas da parte dos Estados Unidos.
Nos discursos e escritos em sua conta do X, Lula insistiu em que «sem soberania, o Brasil não existiria”, e que um «país com um tamanho tão grande não pode ficar com a cabeça baixa durante toda a sua vida», em referência direta às tarifas de 50% impostas pelos Estados Unidos aos produtos do gigante sul-americano.
Ao se aproximarem as eleições gerais no Brasil, o condenado presidente Donald Trump reforçou sua campanha a favor do candidato ultradireitista Flávio Bolsonaro, a quem recebeu, em junho, na Casa Branca, e disse que «foi um prazer ter no Salão Oval um jovem inteligente» e depois juntou duas fotos de outra reunião que teve com Flávio em 26 de maio, encontro secreto que não havia sido divulgado.
Para ajudar Bolsonaro (filho do ex-mandatário Jair Bolsonaro – 2019-2023), Trump decretou um elevado imposto sobre os produtos brasileiros, com o claro propósito de afetar a economia do Brasil e diminuir o apoio majoritário da população que Lula tem atualmente.
Na prolongação dessa campanha, o regime estadunidense classificou de organizações terroristas os grupos brasileiros PCC e Comando Vermelho, um passo que Bolsonaro solicitou a Trump, durante seu encontro, e que Lula rechaçou, por considerar que «poderia abrir a porta a uma intervenção militar estadunidense” em seu país.
Outra artimanha rechaçada por Brasília foi que se aprovasse, como embaixador nessa nação, o nome, designado por Trump, de Daniel Pérez, deputado republicano pela Flórida, próximo do mitômano Marco Rubio. A resposta foi que isso só se faria depois das eleições, já que os Estados Unidos haviam passado um ano e meio sem embaixador no país.
O governo nacionalista do Brasil também enfrenta uma forte campanha de desinformação em todos os meios de comunicação hegemônicos que tentam desprestigiar os avanços realizados no gigante sul-americano nos últimos anos.
Com o fim de garantir a estabilidade global e fortalecer a posição do país no cenário internacional, Lula adotou uma postura construtiva, o que foi confirmado numa recente conversação telefônica com Trump para tratar de limar asperezas.
Entre as conquistas de seu governo, destacam-se a diversificação das relações comerciais, mediante a ampliação da cooperação com os países do BRICS e da Ásia Pacífico; reduzir a importância do dólar no comércio mundial, bem como promover a criação de sistemas de pagamentos alternativos.
Quanto à economia e política social, o Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas; devido a uma queda acentuada da pobreza e da extrema pobreza: 8,7 milhões de pessoas saíram da pobreza, e 3,1 milhões se afastaram da extrema pobreza.
Para o fechamento do ano, estima-se um crescimento de 2,4% do Produto Interno Bruto; a taxa de desemprego alcançou um dos níveis mais baixos da história, com 5,3%. Além disso, incrementaram-se as exportações de produtos brasileiros a diferentes países e registrou-se a menor inflação dos últimos anos, com 4,24%.
Mas Lula, com uma longa história política e no cargo de presidente, compreende que, nas próximas eleições, não só estará em jogo a independência do Brasil, senão a de toda a América Latina, especialmente da América do Sul, pelas ânsias políticas e econômicas dos Estados Unidos, que quer apropriar-se de toda a região e colonizá-la.
Por isso, as últimas declarações do presidente brasileiro a esse respeito foram lapidares: «Foi a soberania que nos trouxe a liberdade e a independência […] a soberania é a autoridade que um povo tem sobre seu próprio destino, para nós é o direito a construir uma sociedade livre, justa e solidária».
*Jornalista cubano. Escreve para o diário Juventud Rebelde e o semanário Opciones. É autor das obras “La Emigración cubana en Estados Unidos”, “Historias Secretas de Médicos Cubanos en África” e “Miami, dinero sucio”, entre outras.
Tradução: Marcia Choueri

