Intervenção de Bruno Rodríguez Parrilla, ministro das Relações Exteriores da República de Cuba
Debate geral do 81º período de sessões da Assembleia Geral das Nações Unidas.
Nova Iorque, 26 de setembro de 2026
Senhor Presidente da Assembleia Geral:
Senhora Vice-Secretária-Geral:
Dentro de aproximadamente três horas, completar-se-ão exatamente 66 anos da frase pronunciada pelo Comandante em Chefe Fidel Castro Ruz, em memorável discurso nesta tribuna, e cito: “Que desapareça a filosofia da espoliação, e terá desaparecido a filosofia da guerra! Que desapareçam as colônias, que desapareça a exploração dos países pelos monopólios, e então a humanidade terá alcançado uma verdadeira etapa de progresso!”.
No entanto, é alarmante o avanço do expansionismo, dos atos de usurpação e conquista e da agressão militar e econômica. É absurda e irrealizável a pretensão do governo dos Estados Unidos de impor a paz pela força. Pilares fundamentais do Direito Internacional e da Organização das Nações Unidas, como a igualdade soberana entre os Estados, estão sob ataque permanente.
O crime genocida do sionismo contra o povo palestino, os ataques piratas contra embarcações e as execuções extrajudiciais no mar do Caribe e em áreas do Pacífico, a agressão militar contra a República Bolivariana da Venezuela e a guerra contra a República Islâmica do Irã são novas manifestações dessa atrocidade.
São também reflexo da crise de identidade e relevância que foi imposta à Organização das Nações Unidas, inclusive a esta Assembleia Geral, o órgão mais universal, democrático e representativo da comunidade internacional.
Estamos convencidos da necessidade indispensável de preservar e fortalecer a ONU, ao mesmo tempo em que a tornamos mais democrática, eficaz e próxima dos povos.
Em Cuba, como se sabe, enfrentamos uma agressão multidimensional do governo dos Estados Unidos, uma hostilidade permanente, abusiva e impiedosa que já dura quase sete décadas. Desde janeiro de 2026, esta se intensificou e se tornou mais cruel e perigosa com o estabelecimento de um bloqueio energético que, por meio da intimidação e da coerção, proíbe todos os países de exportar combustíveis para Cuba, o que equivale a um bloqueio naval, tipificado no Direito Internacional como um ato de guerra.
Por meio de medidas sucessivas, o governo dos Estados Unidos vem acrescentando proibições a todos os países quanto a produtos e serviços que não podem ser exportados ou transportados para Cuba. Mais de sete mil contêineres foram retidos em diversos portos, muitos deles contendo alimentos, medicamentos e dispositivos médicos, ou até mesmo contratados por empresas privadas cubanas.
Em um fato insólito e sem precedentes, uma superpotência priva unilateralmente todos os Estados do direito de exportar o produto que desejem ao país que desejem e viola, de forma integral e contínua, a liberdade de comércio e de navegação.
Soma-se a isso a intimidação de empresários de diversos países para que abandonem, contra a sua vontade, seus investimentos e negócios em Cuba, os obstáculos e as armadilhas para impedir a chegada de carregamentos comerciais absolutamente legítimos, as pressões para impedir o fluxo de visitantes e turistas e o esforço destinado a limitar, tanto quanto possível, o acesso legítimo de Cuba a financiamentos, tecnologia e mercados.
Chega-se ao cúmulo de pressionar, em níveis inimagináveis, governos soberanos para que renunciem aos serviços médicos que nos solicitaram, em benefício de suas respectivas populações, e que são prestados com altruísmo por profissionais cubanos, porque o governo dos Estados Unidos se opõe a essa cooperação, sem se importar com o efeito ou o dano causado às populações que ficam privadas de atendimento médico gratuito e de qualidade, isto é, privadas de um direito humano elementar. Na última quinta-feira, enquanto esta Assembleia Geral estava em sessão, o Departamento de Estado convocou uma reunião humilhante especificamente com os Estados receptores, a fim de exercer pressões e fazer ameaças.
Segundo descreve o Secretário de Estado, a política oficial dos Estados Unidos é fechar para Cuba cada válvula, saída ou fórmula de sobrevivência.
O impacto de um cerco tão rígido e impiedoso tem rosto humano. A guerra econômica é dirigida contra o povo. Recai sobre toda a população cubana. Ceifa vidas, provoca sofrimento individual e coletivo e gera angústia. Não é um “dano colateral”. É uma política deliberadamente concebida para atingir as famílias cubanas em seu ponto mais sensível, impedir o bem-estar e ferir a dignidade do povo.
É um ato de punição coletiva, crime também proscrito pelo Direito Internacional Humanitário. O objetivo evidente e imediato é induzir uma crise humanitária em Cuba, o que também constitui um crime.
O governo dos Estados Unidos e o Departamento de Estado tiveram de reconhecer o sofrimento infligido, mas têm o descaramento e o cinismo de insistir em culpar o governo de Cuba. O algoz culpa a vítima.
Seguem a fórmula definida pelo Departamento de Estado, desde 1960, no infame memorando Mallory, que estabeleceu como política oficial — vigente até hoje — a derrubada do governo cubano por meio da asfixia econômica e do sofrimento extremo do povo causado por privações materiais, fome e desespero.
O Presidente dos Estados Unidos declarou nesta tribuna, há poucos dias, que Cuba é um Estado fracassado. Se assim fosse, por que tiveram então de estabelecer um bloqueio de combustíveis? Por que impuseram sanções secundárias? Por que precisam ameaçar, perseguir e pressionar todos os Estados do planeta? O Presidente dos Estados Unidos também reconheceu que seu governo impõe a Cuba a maior pressão jamais exercida. Meses antes, havia dito, e cito: “Só falta entrar e destruir o local”.
Persiste a ameaça do uso da força militar contra Cuba, conduta que constitui uma violação do Direito Internacional e uma grave transgressão da Carta de São Francisco.
Caso se concretizasse, constituiria um crime de grande magnitude. Provocaria a morte de cubanos e de jovens estadunidenses, além de enorme destruição. Esperamos que isso nunca aconteça. Cuba exerceria, com toda a sua determinação e energia, o legítimo direito de se defender. Essa agressão é acompanhada por uma brutal guerra midiática e cognitiva, dirigida não apenas contra o povo cubano, mas também contra os cidadãos estadunidenses e a opinião pública mundial. Caracteriza-se por tentativas vulgares e ostensivas de interferência nos assuntos internos de Cuba, o que constitui outro delito internacional.
Perguntam-nos o que os Estados Unidos buscam com uma conduta tão agressiva. É uma pergunta que costuma nos surpreender, pois os representantes daquele governo declararam, sem constrangimento, seu objetivo de se apoderar de Cuba, controlar o país e dominar a economia, ou seja, anular, por meio da agressão e da asfixia econômica, a soberania nacional pela qual gerações de cubanos lutam desde o século XIX: primeiro, para conquistá-la e, desde 1959, alcançada a plena liberdade, para defendê-la tenazmente diante dos maiores riscos, inclusive o de um holocausto.
O comportamento dos Estados Unidos apoia-se na falácia, declarada no início deste ano, de que Cuba representa uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos, absurdo que aquele governo repete despudoradamente. Para tentar, em vão, sustentá-la, inunda os meios de comunicação com acusações falsas, por intermédio de seus porta-vozes e das publicações que contrata e financia, aproveitando-se do crescente domínio governamental dos Estados Unidos sobre as grandes plataformas de comunicação. O próprio Presidente estadunidense repetiu essa falácia neste recinto, há poucos dias.
Qualquer observador minimamente informado compreende o caráter fantasioso e perverso de apresentar uma nação em desenvolvimento como Cuba, relativamente pequena e com uma economia de desempenho modesto, como uma ameaça à maior potência nuclear, militar, tecnológica e econômica do planeta.
Esta Organização e os Estados-membros dispõem de abundantes provas de que somos um país de paz, dos esforços de Cuba em favor da cooperação internacional, do entendimento e da solução pacífica das controvérsias, bem como do papel ativo que sempre desempenhamos em apoio às Nações Unidas.
Cuba não é uma ameaça; o bloqueio, sim!
Cuba não é uma ameaça; o bloqueio é!
Sempre estivemos e continuamos dispostos ao diálogo com o governo dos Estados Unidos para tentar encontrar uma solução para as diferenças bilaterais, com base na seriedade, no respeito, na igualdade soberana, na observância do Direito Internacional, sem ingerência nos assuntos internos nem precondições. Estamos abertos a relações comerciais e empresariais com companhias estadunidenses, assim como estamos com qualquer outro país.
Temos consciência do imenso desafio que nossa nação enfrenta para garantir sua segurança, sua sobrevivência, o bem-estar do povo e o destino da Pátria. Não enfrentamos esse desafio passivamente. Fazemo-lo com firmeza e dignidade.
Com base nisso, avançamos em um processo de mudanças profundamente transformador do modelo econômico e social, ancorado em nossa experiência histórica.
Em 30 de julho, no Sétimo Período de Sessões da Assembleia Nacional do Poder Popular, o presidente Miguel Díaz-Canel disse: “Diante do complexo cenário que descrevi, como persistir na construção do socialismo? Como encontrar os recursos financeiros e materiais para preservar as conquistas sociais da Revolução? Da mesma forma que em etapas anteriores particularmente complexas, como o Período Especial, quando, sob a condução do Comandante em Chefe e, posteriormente, sob a liderança do General de Exército, o modelo econômico foi transformado para se adaptar às desafiadoras circunstâncias externas, no contexto atual propusemo-nos a empreender as transformações exigidas pelo momento, sob a direção do Partido, de maneira colegiada e democrática, em consulta com o povo, sem comprometer a independência, a soberania nacional nem as conquistas sociais da Revolução”. Fim da citação.
Nessa sessão, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou um programa inovador, com novas práticas, atores e conceitos econômicos. Tudo isso é realizado dentro da Constituição vigente, aprovada em referendo livre e universal, e segundo a concepção de nosso Estado socialista de direito e justiça social.
Como assinalou o líder da Revolução Cubana, General de Exército Raúl Castro Ruz, o mais importante, e cito, “será a implementação adequada e oportuna, com prioridades bem definidas e a participação consciente do povo”. Fim da citação.
Esse processo baseia-se na força que soubemos construir, no potencial de nossos recursos humanos e na determinação de responder às necessidades do povo com a maior justiça social possível, sem desistir do empenho de defender, da maneira mais absoluta e enérgica, a soberania e o direito à livre determinação.
Sabemos que contamos com o apoio da comunidade internacional e com a solidariedade de milhões de pessoas, entre elas um número cada vez maior de cidadãos estadunidenses. Isso se manifesta nas reiteradas demonstrações e declarações de apoio a Cuba e de rejeição à agressão abusiva. Expressa-se na ajuda material solidária recebida por nosso povo, que procura mitigar os enormes danos causados à economia e à sociedade cubanas.
Esse espírito de solidariedade e empatia manifesta-se também, com especial força, entre os cubanos que residem de forma permanente ou temporária fora do território nacional e entre seus descendentes, especialmente aqui nos Estados Unidos.
Senhor Presidente:
Rejeitamos a Doutrina Monroe e seus corolários, assim como repudiamos qualquer tentativa de militarização, intervenção ou dominação imperialista na América Latina e no Caribe, proclamados Zona de Paz em 2014, precisamente em Havana.
Como pequeno Estado insular em desenvolvimento, manifestamos nossa solidariedade aos nossos irmãos que compartilham condição semelhante e o seu alerta diante do preocupante e inexorável avanço da mudança climática.
É necessário promover uma governança mais inclusiva das novas tecnologias da informação e das telecomunicações, particularmente das tecnologias disruptivas, como a inteligência artificial.
Rejeitamos a aplicação de medidas coercitivas unilaterais. Expressamos nosso apoio e solidariedade a todas e a cada uma das nações que delas são vítimas.
Reafirmamos nossa solidariedade ao Governo de Reconciliação e Unidade Nacional da Nicarágua.
Reiteramos nosso apoio ao direito inalienável do povo de Porto Rico à livre determinação e à independência.
As nações irmãs da África e do Caribe merecem tratamento justo e diferenciado, bem como reparações pelos horrores do colonialismo e do tráfico transatlântico de escravos.
Reafirmamos nossa solidariedade ao povo saarauí e ao seu direito à livre determinação.
Reiteramos nosso apoio ao princípio de “Uma Só China”.
Temos a convicção de que o rumo atual das relações internacionais — marcado pelo desrespeito ao Direito Internacional, pela desobediência às Nações Unidas e pela imposição da vontade unilateral do mais poderoso sobre outros países, mediante intimidação e coerção — é perigoso e insustentável. A lei da selva não pode ser o futuro da humanidade.
Foi para impedir essas práticas, bem como para promover a paz e a justiça, que as gerações que nos antecederam fundaram as Nações Unidas e, durante décadas, desenvolveram e procuraram enriquecer sua atuação. Recuperemos seu papel, enquanto talvez ainda estejamos a tempo, antes que a Organização das Nações Unidas passe à história como um sonho não realizado de grandes promessas.
No ano de seu centenário, confiemos, como Fidel Castro Ruz, líder histórico da Revolução Cubana, que, se lutarmos com determinação, um mundo melhor será possível.
Pátria ou Morte!
Venceremos!
(Ministério das Relações Exteriores de Cuba)

