Publicado em 28 de julho de 2025 por Cuba Periodistas*
Katiuska Blanco Castiñeira**
Em subida constante, entre os bosques de pinheiros e as samambaias abundantes e úmidas, chegamos até onde está permitido, nas faldas rochosas e negruscas do Popocatépetl. Trazemos na memória o Che, a quem Fidel sempre recorda como o persistente tenaz nas subidas ao Popo, porque invariavelmente tentava chegar ao cume e, ainda que não o conseguisse, insistia na escalada vezes seguidas, apesar da sufocação de seus pulmões cansados, enfermos. Hoje o céu está limpo, e o frio não é tão intenso, mas só é possível aproximar-se até os confins localizados a 3.700 metros acima do nível do mar, em uma elevação de 5.480 metros, que, de tão alta, parece que abraça as brumas e o vento. Os viajantes observam deslumbrados a paisagem imponente do Popo, que agora, enfebrecido, é um ponto inalcançável nas alturas. Há longos meses evacuou-se definitivamente o acampamento de alpinistas localizado nas proximidades da cratera, e as autoridades tentam impedir a passagem dos mais audaciosos com mil e uma prevenções que nem sempre dão resultado. Na verdade, é preciso resignar-se, conformar-se com a contemplação da montanha a uma distância prudente e presenciar as fumarolas com que o gigante adormecido demonstra a todos que se espreguiça lentamente e pode derramar-se de súbito em torrentes de lava e fogo. Em tempos muito antigos, os habitantes destas paragens escarpadas e perdidas em sua exuberante vegetação, adoravam os vulcões como lugares sagrados. Segundo a mitologia náuatle, em Teotihuacán, muito perto deste lugar, Quetzalcóalt criou os homens e lhes deu o milho. Os indígenas viam no Popocatépetl o deus Tláloc, que é quem rege as águas. As neves no inverno cobrem as alturas e depois, com o calor do verão, descem ao vale do México, em mananciais de líquido gelado e límpido. Toda a sincera ingenuidade aborígene se desvaneceu no infortúnio. Em 1519, os senhores dos povos desta região deram as boas-vindas aos conquistadores espanhóis em um lugar atualmente conhecido como Passo de Cortés. À cratera do Popocatépetl, chegaram, por ordem de Hernán Cortés, Diego Ordaz e seus homens, em busca de enxofre para fabricar a pólvora com que disparariam suas armas de deuses desconhecidos. Mas, apesar de terem se levantado, sobre os templos indígenas, os da hispanidade, as histórias continuaram tão vivas como o relevo portentoso destes cumes da serra Nevada, na geografia do México. Detidos diante dos vulcões Iztaccíhualtl — que significa mulher branca — e Popocatépetl —que sugere um cerro fumegante —, conhecemos a lenda viva: a de uma jovem branca que adormeceu, entre tules e gazes, enquanto um índio, emplumado e garboso, perseverou em cuidá-la, y ali ficaram os dois, convertidos em pedra dos páramos para sempre.
(Crônica originalmente publicada em Juventud Rebelde, 2006).
**Katiuska Blanco Castiñeira (Havana, 1964). Jornalista e ensaísta. Foi correspondente de guerra em Angola e redatora do diário Granma durante mais de dez anos. É autora de livros como Ángel, la raíz gallega de Fidel, Fidel Castro Ruz, guerrillero del tiempo: Conversaciones con el líder histórico de la Revolución Cubana, e Todo el tiempo de los cedros: Paisaje familiar de Fidel Castro Ruz.*