Publicado por Cuba em Resumen, em 8 de agosto de 2025*
Hedelberto López Blanch**
A ofensiva geral da direita boliviana, que conta com o apoio da mídia hegemônica ocidental; a crise econômica acentuada no último período e a divisão interna das forças de esquerda apresentam um panorama desfavorável para que os movimentos democráticos possam reter, nas eleições de 17 de agosto, um governo que há 20 anos trabalha para o povo.
O governo estadunidense e as poderosas companhias de mineração, farmacêuticas e militares dessa nação apostam em apropriar-se das ricas jazidas de lítio e gás e da biodiversidade do país andino, e para isso utilizam personagens e milionários das elites bolivianas dispostos a apropriar-se do poder.
Constantes mensagens sobre a crise econômica e financeira (com sinais de ser provocada desde o exterior); numerosas pesquisas realizadas por companhias ocidentais que mostram vantagens dos candidatos de direita comparados aos de esquerda, assim como a divisão interna do Movimento Ao Socialismo (MAS) são exaltados pela mídia hegemônica, para desanimar a população e preparar o cenário com vista a derrotar as forças progressistas nas eleições.
Os candidatos à eleição presidencial são: Andrónico Rodríguez, pela Aliança Popular; Max Jhonny Fernández, pela Aliança Força do Povo; Manfred Reyes Villa, por Autonomia para Bolívia Soma-te; Jorge “Tuto” Quiroga, pela Aliança Liberdade e Democracia; Rodrigo Paz Pereira, pelo Partido Democrata Cristão; Carlos Eduardo del Castillo, pelo oficialista MAS, e Samuel Doria Medina, pela Aliança Unidade.
Segundo as últimas pesquisas, estariam à frente os direitistas Medina (24,5%), o ex-presidente Jorge Quiroga (22,9%) e Rodrigo Paz (7,6%), seguido pelo esquerdista Andrónico Rodríguez, com 7,4%, e o ex-militar
Manfred Reyes Villa (7,2%).
Como se sabe, na Bolívia, 25% da população não são considerados nas pesquisas, por ser um voto rural disperso. Essas comunidades se reúnem e acordam votar por um candidato, mas ainda não se sabe se o farão pelo voto nulo, como propõe Evo Morales, ou por Andrónico. Ou seja, provavelmente o ganhador deverá contar com a população indígena, como ocorreu em 2020, com a eleição de Luis Arce Catacora.
Analisemos algumas características dos três principais candidatos da direita.
Samuel Doria Medina é um empresário multimilionário e ex-ministro, que tentou ser presidente em três ocasiões. Dono de uma rede de hotéis e da franquia de Burguer King na Bolívia, anseia por aproximar-se estreitamente do presidente estadunidense Donald Trump. Prevê a abolição dos subsídios sociais e o fechamento de empresas estatais.
Com ajuda de Washington, controla muitos meios de comunicação, para influenciar os eleitores. Seu possível triunfo levaria à queda do nível de vida da população, ao aumento da desigualdade, ao incremento dos protestos populares e à agravação da criminalidade.
Jorge «Tuto» Quiroga estudou engenharia industrial na Universidade do Texas, trabalhou para a multinacional IBM e se casou com a estadunidense Virginia Gillum.
Em 1988, regressou à Bolívia e se uniu ao partido Ação Democrática Nacionalista, fundado pelo ditador e ex-presidente Hugo Banzer. Ocupou cargos no FMI, no Banco Mundial e na Corporação Andina de Fomento. Em 1997, foi vice-presidente, durante a ditadura de Banzer. Sucedeu a este como mandatário, de agosto de 2001 a agosto de 2002.
Se chegar à presidência, seu governo ficará como um protetorado dos Estados Unidos, que controlará as riquezas naturais bolivianas, enquanto serão reduzidos os programas sociais na saúde, educação e cultura.
Quanto ao ex-capitão Manfred Reyes Villa, passou à vida política unido ao partido criado por Hugo Banzer. Venceu várias eleições como vereador e prefeito de Cochabamba, graças ao apoio das forças direitistas e fascistas, e à manipulação suja dos meios de comunicação que ele controla. Um Tribunal boliviano o declarou culpado de subornos e o condenou, em 2016, a cinco anos de prisão. Para evitar o castigo, o corrupto se escondeu nos Estados Unidos, para mais tarde regressar a La Paz.
Enquanto isso, Andrónico Rodríguez, ex-presidente do Senado, foi o escolhido como a opção da esquerda boliviana, depois da divisão do MAS.
Entretanto o dano maior para as forças progressistas foi inegavelmente a divisão dentro do Movimento Ao Socialismo (MAS), que traz um enorme perigo para as forças democráticas de esquerda e abre as portas, se não houver uma mudança, para que a oposição de direita alcance a vitória nas eleições presidenciais.
A obstinada posição do ex-presidente Evo Morales, de se apresentar a uma terceira eleição (apesar de isso ser vedado pela Constituição) e suas contradições com o atual mandatário Luis Arce foi um duríssimo golpe para o povo boliviano, que poderia perder, com um possível governo de direita e pró-estadunidense, todos os benefícios que alcançaram nos últimos 20 anos.
Como disse o presidente Arce, depois de renunciar à candidatura por um novo mandato: o fundamental é a união das forças progressistas, para derrotar a direita.
Esperemos que, pelo bem do povo boliviano e da união latino-americana, as forças de esquerda consigam superar-se, no ano do 200º aniversário da independência dessa nação.

