Petro e o extenso negócio da droga em Miami

Por Hedelberto López Blanch*
Publicado por Resumen Latinoamericano** 

em 30 set 2025

         O presidente colombiano Gustavo Petro ofereceu, ante a Assembleia Geral das Nações Unidas, um dos discursos mais valentes dos últimos tempos na tribuna dessa organização, ao denunciar abertamente as arbitrárias e agressivas ações que os Estados Unidos, e seu atual presidente, Donald Trump, cometem contra numerosos países do mundo.

          Poucas horas após ter falado nessa mesma sala o próprio Donald Trump, cujas palavras foram qualificadas por muitos analistas, diplomatas e políticos como agressivas, prepotentes e cheias de mentiras, Petro, com uma linguagem direta e coloquial, desnudou as numerosas falsidades provenientes do atual mandatário estadunidense.

          Penso que Petro, naquele momento, também recordou um famoso discurso de um grande da América Latina, o presidente Hugo Chávez, quando, em 20 de setembro de 2006, ao dirigir-se à Assembleia Geral da ONU após o presidente estadunidense George Bush, afirmou: «Ontem o Diabo esteve aqui, ontem o Diabo esteve aqui, neste mesmo lugar. Ainda cheira a enxofre esta mesa em que me tocou falar».

          Nesta ocasião, o presidente colombiano, entre as falácias de Trump, as quais refutou, referiu-se às infundadas acusações feitas à Venezuela, como um país traficante de drogas, e às ameaças militares dos Estados Unidos no Caribe e especificamente contra a Revolução Bolivariana.

          Sobre esse tema, afirmou: «Os narcotraficantes vivem em Miami, Nova York, Paris, Madri, Dubai. Muitos têm olhos azuis e cabelo loiro, e não vivem em lanchas onde caem os mísseis. Os narcotraficantes vivem ao lado da casa de Trump em Miami».

          As palavras de Petro sobre a expansão do negócio da droga em Miami são fáceis de comprovar, porque há anos aparecem nos meios de comunicação, e eu recolhi muitos exemplos deles em uma investigação que realizei naquele país e que depois publiquei em um libro intitulado Miami Dinero Sucio***.

          O boom da droga em Miami começou em meados da década de 1960, quando os cubano-americanos que haviam sido treinados pela Agência Central de Inteligência (CIA) para realizar atentados contra Cuba, ficaram sem emprego  devido ao fracasso da chamada “Operación Mangosta”, com a qual foram criadas mais de 50 empresas fantasmas de todo tipo em Miami, para camuflar as operações desestabilizadoras contra a Revolução.

          Esses homens foram ensinados como e por onde penetrar com lanchas rápidas entre as diversos ilhotas e enseadas cubanas, mas também aprenderam como fazê-lo pela geografia estadunidense. Eles se aliaram com narcotraficantes colombianos e começaram a encher Miami, Nova Jersey, Nova York e outras cidades primeiramente com os contrabandos de maconha e depois de cocaína.

          Assim surgiram os grandes narcotraficantes, como Albero Cruz, Salvador Magluta, Augusto Willy Falcón e Leonel Martínez, para citar apenas alguns que dominavam e controlavam os agentes policiais que os protegiam em troca de altas somas.

          Na longa lista dos narcos, encontra-se Armando Pérez Roura Jr., filho do porta-voz da direita cubano-americana e ex-diretor da emissora Radio Mambí, que foi detido com cerca de 1.300 quilos de pasta de cocaína, mas que, como é habitual nessa sociedade corrupta, embora a promotoria pedisse 10 anos de prisão, foi liberado, graças aos contatos políticos do seu pai.

          Outro caso sumamente esclarecedor sobre o imenso contrabando entre homens poderosos da máfia cubana nos Estados Unidos foi o do fundador e vice-presidente da ultradireitista Fundação Nacional Cubano-americana (FNCA), Carlos Salman.

          Quando Salman morreu, em 12 de setembro de 2001, vários periódicos exaltaram sua figura. O Nuevo Herald assinalava: «foi um importante ativista republicano de Miami-Dade. Construiu do zero um enorme negócio imobiliário». Suas conexões políticas o levaram a ter amizade com o ex-presidente Ronald Reagan e com direitistas cubano-americanos como Ileana Ros-Lehtinen. Uma das principais avenidas de Miami foi batizada com seu nome.

          O vexame veio vários anos depois, em 2007, quando los jornais colombianos Primera Plana e El Colombiano denunciaram todo o tráfico de droga e de lavagem de dinheiro em que Salman havia participado, com suas companhias C. W. Salman Partners e Salman Coral Way Partners. Todo o cartaz de homem honesto e construtor de sucesso desabou e trocaram até o nome da rua.

          Mas não é preciso ir muito longe nesse tema. Em 1987, Orlando Cicilia, casado com Bárbara Rubio, irmã do secretário de Estado Marco Rubio, foi detido em casa, onde encontraram mais de 15 milhões de dólares em cocaína (o dinheiro nunca apareceu). Cicilia era testa de ferro de um dos maiores narcotraficantes de estes tempos, Mario Tabraue.

          Condenado a 25 anos de prisão, Cicilia foi libertado no ano 2000, graças á influência de seu cunhado Marco Rubio, então líder da Câmara de Representantes da Flórida, que também pressionou as autoridades para que concedessem uma Licença de Negócios Imobiliários a seu «reabilitado» cunhado. Por ações desse tipo, alguns em Miami, como o ex-prefeito de Hialeah, Raúl Martínez, o apelidaram de Narco Rubio.

          Um informe da Drug Enforce Agency (DEA) – órgão de repressão ao tráfico de drogas dos Estados Unidos – indicou que, nos finais da década de 70, cerca de 70% da cocaína e da maconha que chegavam ao país procedentes da América Latina (principalmente da Colômbia) entravam ao mercado estadunidense pelo sul da Flórida, um negócio calculado em 40 bilhões de dólares.

          Por isso, Petro enfatizou, com muita razão e sabedoria, ante o plenário da Assembleia Nacional da ONU, que os traficantes não estão em pequenas lanchinhas que são atacadas com mísseis, sem nenhuma legitimidade, pela frota militar estadunidense, senão que eles vivem em mansões nas principais capitais e também perto da residência do presidente Trump, (referindo-se a Mar-a-Lago em Miami).

        Moral da história: mesmo que agora Washington retire o visto de Petro, as verdades que ele expressou contra Trump e as ações agressivas dos Estados Unidos no mundo ficarão registradas na história da ONU.

*Jornalista cubano. Escreve para o diário Juventud Rebelde e o semanário Opciones. É autor de “La emigración cubana en Estados Unidos”, “Historias secretas de médicos cubanos en África” , “Miami, dinero sucio”, “El renacer de las cigarras” e “Rubio, un mitómano incontrolable”, entre outros.
**https://cubaenresumen.org/2025/09/30/petro-y-el-extenso-negocio-de-la-droga-en-miami/ 
***Livro que será publicado proximamente pelo Projeto Cultural Nossa América, sob o título “Miami, dinheiro sujo”.

 

Foto: Gustavo Petro na ONU (Los Angeles Times)
Tradução: Marcia Choueri

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