Viver sob o signo do bloqueio é uma história real (parte 2): Viver e locomover-se em Alamar

(Almendrón em Havana) – Foto: Abel Padrón Padilla/ Cubadebate.

Trecho de artigo publicado em Cubadebate, em 22 de fevereiro de 2026

Por: Oscar Figueredo Reinaldo, Thalía Fuentes Puebla, Yilena Héctor Rodríguez, Marcelino Vázquez Hernández, Frank Martínez Rivero, Verónica Alemán Cruz, Aniela Dumas Rojas, Inés María Castro Machado, Abel Padrón Padilla, Enrique González Díaz (Enro)

   Quem trabalha na rua não precisa que lhe expliquem “como estão as coisas”. Percebe pelo olhar do passageiro fica em dúvida antes de embarcar, pelo amigo que deixa o carro porque não encontra peças, pelo vizinho que cozinha com lenha porque não encontra gás. A rua é um radar. E quem a frequenta diariamente aprende a ler seus sinais.

   Por isso, para entender o que acontece em Alamar (município de Havana do Leste), é preciso subir em um almendrón, sentar-se ao lado do motorista e perguntar.

   Julio Morales tem cinquenta e dois anos e um almendrón creme de 1986. Mora na Avenida de Los Cocos, num prédio de cinco andares, com os pais, a esposa e o filho pequeno. Há nove anos trabalha por conta própria fazendo a rota entre Micro X (bairro de Alamar) e Hotel Sevilla (no centro histórico de Havana).

   Em Alamar, uma viagem de carro até Havana custa hoje quinhentos pesos. Há quatro semanas custava trezentos. Em dezembro, duzentos e cinquenta.

   Não existe nenhum anúncio oficial que explique essa progressão, nem gráfico com curvas ascendentes publicado em jornal algum. O aumento simplesmente acontece, todo amanhecer, na disputa entre quem precisa ir e quem tem as chaves do carro. O motorista define um preço, o passageiro coloca a necessidade, e a necessidade — quase sempre — acaba pagando.

“Há quatro semanas, embora o preço fosse trezentos, já havia quem quisesse cobrar quatrocentos — diz. Agora, quinhentos, se forem generosos. Se chover, se for muito tarde, se o motorista for cara de pau… pode ser seiscentos ou até mil.

   Quem define esses preços?

   “Cada um faz o seu. Depende de como está o combustível”.

   Julio não cobra mil. Diz que tem “um preço justo”, embora justo seja, neste contexto, uma palavra fora de moda. Mas admite que às vezes, quando o dia foi longo e o sol forte, se aparece alguém com uma criança no colo, dá vontade de pedir mais. Não por maldade, esclarece, mas porque quem tem o carro também tem suas necessidades: comida, combustível, peças de reposição.

   Em Alamar, há muitos triciclos.

“São uma invenção da necessidade — explica —. Bicicletas adaptadas com banco atrás, às vezes com um toldo de lona para proteger do sol, outras vezes sem nada. Dentro do município cobram cem pesos. Mas se pedir para levar até o Naval (cerca de 10 km de distância), o preço sobe para duzentos e cinquenta”.

   Julio conta que conhece um rapaz, não deve ter mais de vinte e cinco anos, que pedala sob o sol das duas da tarde e já o viu levando senhoras idosas no banco de trás.

   “As mulheres vão com suas sacolas de pano — diz Julio —. O rapaz pedala, sua, negocia o preço enquanto avança. Quando chegam ao destino, elas pagam sem discutir. Caminhar até o Naval com uma sacola, com esse calor, com idade, é outra história”.

   O rapaz se chama Yandry. Julio o conhece de vê-lo sempre na mesma esquina. Trabalhava na construção, mas a obra parou por falta de materiais. Agora, está com o triciclo, que é do pai, mas quem dirige é ele.

   Quanto tira por dia?

“Depende. Se faz sol, se não chove. Às vezes, cinco mil”.

   E aceita transferência bancária?

   “Transferência? Aqui o que manda é dinheiro vivo. Quem tem dinheiro no celular não pode pagar, nem para ele, nem para mim, nem para quase ninguém”.

   Julio fica em silêncio por um instante enquanto dirige.

   “É isso que acontece — diz, por fim —. Quem tem dinheiro no celular não consegue comprar. Quem vende não pode aceitar transferência porque não consegue sacar. E sacar dinheiro no banco está limitado. É um beco sem saída. E a gente fica preso”.

   O dinheiro em espécie virou um problema quase tão grande quanto a falta de combustível.

   Os pequenos empreendimentos privados quase já não aceitam pagamento por transferência bancária. Nessas últimas semanas, quase nenhum negócio em Alamar aceita. Os donos olham para você e dizem que não, apenas dinheiro vivo, infelizmente.

“É que o dinheiro fica preso nos cartões (mais de 120 mil pesos)” — explicou uma mulher que vende em um pequeno comércio privado, relativamente novo, na esquina da Praça da África, na zona 7. Vendem, recebem, o saldo cresce, e chega um momento em que não podem mais aceitar porque não há como sacar”, garante Julio.

   Os bancos, com novos horários, tornaram-se fortalezas inacessíveis para quem trabalha. Abrem quando muitos começam a jornada de trabalho, fecham quando ainda estão na rua. E quando se consegue chegar, a fila dá volta no quarteirão.

   Por outro lado, a Casa de Câmbio às vezes libera dois mil pesos, quando tem boa vontade. E dois mil pesos hoje são quatro viagens de carro. Ou comida de dois dias para uma família de três pessoas.

   “Às vezes, você tem o dinheiro, mas como não pode pagar por transferência, complica tudo. Complica de um jeito que só quem vive isso entende”, afirma Julio.

   Enquanto dirige, Julio aponta com a cabeça para uma mulher atravessando a rua.

   “Já vi essa cena se repetir no mercado, no açougue, na casa daquela senhora que vende ovos. Ela se chama Mimi — diz —. Outro dia a vi contando os ovos um a um. Explicou a situação dela”.

   Mimi mora no prédio de Julio. Ela recebe, todo mês, dinheiro dos filhos que estão no exterior. Esse dinheiro fica no celular. Mas para comprar aqui, na rua, precisa de dinheiro em espécie. Então tem que ir ao banco, enfrentar fila, esperar. Às vezes consegue sacar, às vezes não. E, enquanto isso, os preços sobem.

   “Ela me disse algo que não esqueço: ‘O mais triste é ter o dinheiro e não poder gastar. É o mesmo que não ter’”, diz Julio.

   “Assim se forma um cerco — diz Julio, balançando a cabeça, quase para si —: quem tem dinheiro no celular não pode comprar; quem vende não aceita transferência porque não pode sacar; o banco não libera tanto dinheiro. Todos acabam encurralados”.

   Seguimos em frente. Pela janela, vemos as filas, o povo esperando. Julio dirige com uma mão, com a outra aponta para um grupo de pessoas reunidas na esquina.

Alguns vizinhos se veem obrigados a cozinhar com lenha em meio à crise energética. Foto: Enrique González (Enro)/ Cubadebate.

   “Está vendo aquilo? É o gás”, diz.

   Em Alamar não há gás encanado. Só de botijão, aqueles de metal que, se usados com cuidado, duram três meses. Mas fazia seis meses que não entrava gás no município.

   “O pessoal cozinhava como podia: com eletricidade quando tinha luz, com carvão quando não, com lenha quando achava. Agora voltou a chegar, mas as filas são enormes. Seis meses sem gás é cozinhar com o que der, com o que tiver, com o que se inventar”.

   Enquanto conversamos, o almendrón segue seu caminho.

   “Mas veja — continua Julio —, aqui a luz não falta o dia inteiro. É uma exceção faltar por cinco horas, por exemplo… mas é o liga-desliga o tempo todo. E o pior não é a luz — enfatiza —, o pior é a água. Sem luz, a bomba do prédio não funciona. E sem água, não há nada.”

   Já no túnel, a conversa muda de tom. Julio me conta que já pensou em largar o carro. Que a gasolina está pela hora da morte, que às vezes os passageiros não têm como pagar.

   “Mas o que vou fazer? — pergunta, e a pergunta não parece ser para mim —. É só o que sei fazer”.

   Saímos do túnel. Chegamos a Havana quase de noite. As ruas estão escuras, mais escuras do que antes.

   Julio me deixa no destino. Pago os quinhentos pesos. Ele guarda no bolso da camisa.

   “Bom, até a próxima”, despede-se.

   E parte de volta para Alamar.


Tradução: Lina Noronha

Artigo completo, em espanhol: http://www.cubadebate.cu/especiales/2026/02/22/vivir-bajo-el-signo-del-bloqueo-es-una-historia-real-fotos/

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