Gratidão em tempos de genocídio

Por: Felipe de J. Pérez Cruz*

  O Herói Nacional José Martí Pérez, em sua conhecida carta ao Libertador Máximo Gómez Báez, de 13 de setembro de 1892, ao lhe propor a chefia militar da Guerra Necessária, afirmou: “Ofereço-lhe, sem temor de recusa, este novo trabalho, hoje que não tenho mais recompensa a lhe oferecer além do prazer do seu sacrifício e a provável ingratidão dos homens”. Considero que nossos atuais líderes e governantes enfrentam o mesmo desafio de Martí e, em momentos tão difíceis como os que vivemos, quero compartilhar minhas razões de gratidão.

  Do século XIX ao XXI, os colonialistas e imperialistas “pós-modernos” aperfeiçoaram suas técnicas, seus canais e métodos de dominação. A ingratidão é hoje conduzida como parte do ódio. E o ódio – como se sabe desde tempos remotos – contamina.

Crise humanitária

  Por crise humanitária, na literatura especializada, nas definições dos organismos internacionais e nas realidades que explodem no mundo em que vivemos, entende-se uma situação de emergência generalizada que afeta toda uma comunidade ou grupo de pessoas em uma região ou país. Caracteriza-se pela explosão e inter-relação de altos índices de mortalidade, fome, desnutrição, contágio de doenças ou epidemias e emergências sanitárias. Esta contingência massiva impõe a necessidade de uma ajuda humanitária urgente e de magnitude excepcional, com forte alocação de recursos e serviços. Se tal ajuda não for fornecida com suficiência, eficácia e diligência, a crise humanitária pode desembocar em uma catástrofe humanitária, em um desastre social.

  As causas – em primeira e última instância – das crises humanitárias estão nas dívidas históricas acumuladas pela exploração colonial capitalista dos povos do Sul Global. Hoje, a esse passado de roubo, imposições criminosas e subdesenvolvimento, soma-se uma polarização ainda mais agressiva da riqueza, da depredação e da exploração impiedosa dos recursos naturais e humanos.

  A coincidência dessas crises humanitárias com circunstâncias de ingovernabilidade, guerras e conflitos internos levou a Organização das Nações Unidas e outros grupos regionais a executar as chamadas intervenções militares humanitárias. O paradoxo está no fato de que quem domina as decisões sobre tais “intervenções” são as mesmas potências imperialistas responsáveis pelas situações que pretendem “resolver”.

  Sem exceção, as intervenções humanitárias realizadas até hoje sob a bandeira da ONU, ou por iniciativa de organizações regionais, sempre favoreceram forças, organizações e elementos pró-imperialistas. O exemplo mais próximo está no nosso vizinho e querido Haiti.

  O objetivo genocida da administração Trump, com seu último golpe de bloqueio petrolífero, busca precipitar em Cuba uma crise humanitária, caminho para provocar explosões sociais, ingovernabilidade e caos, até que se “justifique” uma intervenção humanitária.

Cuba diante do genocídio

  Hoje Cuba vive uma existência realmente crítica. Mas não sofre a deterioração e as turbulências que caracterizam as crises humanitárias. As forças personológicas e coletivas acumuladas pelo ethnos cubano, a psicologia de resistência e resiliência, a cultura humanista, a cubanidade, a consciência política, a cubania acumuladas, recriadas e desenvolvidas pela Revolução na nação socialista, assim como a solidez do sistema político, dos sistemas de saúde, de educação, de cultura, de assistência e seguridade social, e a base técnico-material existente, juntamente com correções, medidas pertinentes e as inovações em curso, condicionam uma ação que resiste e vence diariamente o propósito genocida dos desavergonhados fascistas que governam o país do Norte.

  Nosso país não é atacado apenas pelo bloqueio e pelo cerco petrolífero. Com fundos de agências do Departamento de Estado estadunidense e da CIA, alimenta-se a máfia contrarrevolucionária baseada principalmente em Miami; contratam-se mercenários, terroristas e sabotadores, e paga-se a delinquentes, oportunistas e apátridas para que atuem e desestabilizem Cuba. Os organismos da OTAN, a partir de embaixadas em Havana, cumprem missões semelhantes de desestabilização e subversão política.

  A agressão cognitiva é parte dessa preparação para o caos. Os mercenários da subversão ideológica, moral e política exercem seu trabalho de influência ideológica na sociedade. Semeiam sentimentos de dúvidas e rejeições, apelando à “sensatez”, à “moderação”, à “negociação” em benefício das famílias, “do povo”! Não faltam também zombarias mal-intencionadas e desrespeitosas contra o patriotismo.

As “culpas” à esquerda

  Há companheiros que consideram revolucionário colocar os dirigentes acima de qualquer crítica. Outros criticam permanentemente quase tudo o que propõem e fazem os dirigentes e responsáveis pelo Partido [Comunista de Cuba] e pelo Governo cubano. Encontrar o equilíbrio ainda é tarefa em aberto.

  Uma realidade não pode ser ignorada: nossas lideranças são alvo constante de ataques inimigos. Dar crédito aos adversários, às suas lógicas enganosas e às operações de descrédito é trabalho contrarrevolucionário, especialmente nas tensões extremas que enfrentamos hoje.

  Também é contrarrevolucionário o servilismo em torno dos quadros, a rigidez no debate e a crítica às ideias e aos conceitos, assim como repetir o erro de a rotular uns e outros companheiros que discordam de certas decisões, condutas ou estilos de direção.

  Tenho lido e ouvido de amigos no exterior, assim como de camaradas de militância e do Partido [Comunista de Cuba], afirmações de que estamos “pagando o preço” por erros como não priorizar investimentos em centrais elétricas, “não acelerar a mudança de matriz energética” ou “não alcançar soberania alimentar”…

  Não concordo com essa lógica assumir e/ou imputar culpa pela crise econômica, nem pelo atual horizonte de crise humanitária. Mas, tenho manifestado a companheiros e amigos que fazem esse tipo de apreciação —  alguns deles, que muito estimo, se incomodaram — que, em essência, tendem a repetir o erro mais clássico da perspectiva da ultraesquerda: o de unir-se, pelos extremos, àqueles que nos adversam. E é que, com tais “culpas”, diante desse assunto da crise humanitária que tentam nos criar, acabam por se alinhar à propaganda contrarrevolucionária e à guerra cognitiva que nos fazem.

  Considero que os erros, as debilidades e as insuficiências dos quadros que atuam honestamente não acumulam “culpas”, nem é justo um julgamento por culpas. O julgamento entre revolucionários sempre terá de ser o de responsabilidades, inclusive quando forem judiciais. Responsabilidades históricas — as mais dolorosas para um revolucionário — pelos erros estratégicos e operacionais que tenham cometido.

  Sustento que as “culpas” as têm, por maldade, os agentes do império que, atentos a cada insuficiência, a cada decisão ruim ou questionável, ao estímulo à burocracia inepta, ao clientelismo, ao deleite com os méis do poder, ao incentivo às ilegalidades e à corrupção, trabalham para promover e aprofundar cada erro, cada excrescência, e usá-los para sabotar, paralisar, entorpecer, desacreditar, dividir.

  Junto com a resistência e os programas que, na urgência, nos garantem a sobrevivência, temos de nos concentrar em implementar as retificações e transformações urgentes que precisam ser feitas no modelo econômico e social.

  A clareza sobre o caminho está presente na alta direção do Partido Comunista de Cuba (PCC): “Tivemos um Pleno intenso apesar de sua brevidade — afirmou em 13 de dezembro de 2025 o Primeiro Secretário do PCC e Presidente do país, Miguel Díaz-Canel Bermúdez. A situação do país o impõe, necessitando de transformações que não devem ser apenas econômicas e estruturais, mas que também exigem uma mudança de mentalidade quanto às formas e métodos do trabalho partidário”.

  O debate sobre se o problema é aperfeiçoar ou, em essência, mudar o modelo econômico-social do nosso socialismo é importante, necessário e urgente como elemento mobilizador a partir da sociedade política, da academia e da nossa bem nutrida sociedade civil revolucionária. O fracasso estaria se nos enredarmos em discussões bizantinas, disputas, novas imposições e desacordos que afetem a unidade na resistência. A derrota estaria em frear a maturidade alcançada, em deter o desenvolvimento e a robustez da democracia popular decisória.

  Devemos alcançar um caminho que incorpore políticas em uma perspectiva inclusiva, uma política de aperfeiçoamentos que, por acumulação, produza — como resultado histórico — a mudança de modelo que não poucos companheiros afirmam. E não há dúvidas de que o caminho é, por si só, um desafio para todos e, em particular, para aqueles que dirigem, governam e possuem os mecanismos decisórios, em nome do povo.

  A Revolução precisa de tempo para aperfeiçoar e mudar “tudo o que deva ser mudado”. A mudança de mentalidade a que se refere o Secretário-Presidente Díaz-Canel envolve um forte exercício de práxis revolucionária, de aprendizagem e pedagogia política martiana e fidelista, dentro dos próprios quadros da Revolução, no empresariado estatal, cooperativo e privado e, sobretudo, nos exercícios de poder popular da classe operária e das demais classes e setores que assumem o projeto socialista; processo que é preciso fertilizar e aprofundar dentro das estruturas partidárias, governamentais e estatais, dentro das organizações nacionais populares, suas tarefas atuais e seus protagonismos.

Uma ameaça incomum e extraordinária

  O império, sua atual administração fascista e o engendro mafioso da contrarrevolução de matriz batistiana — criado e impulsionado no exterior, em paralelo, por derrotas e ódios acumulados diante de mais de seis décadas de Revolução — sabe do tempo de que precisamos e decidiu impedir nosso esforço de crescimento em qualidade. A declaração do Presidente Donald Trump, de 29 de janeiro, de uma “emergência nacional” diante da suposta “ameaça incomum e extraordinária” que Cuba representaria para a segurança… codifica “em lei” a imediatez assassina que paira sobre a nação e a Revolução Cubana. O bloqueio petrolífero e as medidas em curso para precipitar uma crise humanitária, em meio ao curso de guerra não convencional que já existia; o reforço de uma Entente com governos de direita na região, após conseguir ferir a Revolução Bolivariana da Venezuela, fraturar as relações econômicas cubano-venezuelanas e atacar a colaboração médica cubana na área, são fatos que confirmam as constantes declarações do Presidente estadunidense e de seus porta-vozes sobre seu propósito de destruir “em breve” a Revolução Cubana.

  Realmente, a “ameaça incomum e extraordinária” existe. Ela é constituída pela ação do Governo dos Estados Unidos e nós a sofremos, todos os cubanos e cubanas que vivemos em Cuba. Sei que também a sente, em angústias e preocupações, a imensa maioria da comunidade cubana no exterior, aquela que se preocupa e se ocupa com a sorte de seus familiares e amigos, aquela que está comprometida com um presente e um futuro de paz e prosperidade no nosso arquipélago.

A gratidão

  Livrar-nos da crise humanitária até hoje, apesar das forças obscuras e terríveis que nos empurram para o caos do desamor, a deterioração da vida e a não sobrevivência, não é assunto de milagre. Minha gratidão aos amigos do mundo que apoiam a causa da Revolução Cubana. Minha gratidão a todas e todos os que se mobilizam para fazer fracassar, com sua colaboração material, o plano macabro da crise humanitária. Minha gratidão às e aos compatriotas que, desde outras terras, se uniram a governos e movimentos de solidariedade, participam de suas campanhas e dos esforços de ajuda material que chegam ao país. Minha imensa gratidão ao Governo e ao povo mexicano. Meu agradecimento aos povos e amigos europeus, estadunidenses e latino-americanos. Minha imensa gratidão ao povo e ao governo da Federação Russa, ao povo, ao Partido Comunista e ao Governo da República Popular da China.

  Minha admiração e solidariedade combativa com o povo, o governo e as forças revolucionárias e patrióticas da nação iraniana. Posso dizer, com toda propriedade, que os cubanos e cubanas sabemos que eles resistem pela honra e bem de toda a humanidade progressista, e o fazem, em particular, por Cuba. Suas vitórias contra o império e os criminosos que o lideram já têm — e terão ainda mais no futuro imediato — um impacto direto no nosso próprio destino.

  Como os iranianos, sabemos que o decisivo está no nosso próprio esforço, nos resultados que alcancemos. A vitória que já é a nossa resistência, o fracasso da estratégia genocida de crise–intervenção humanitária, é uma nova conquista histórica do nosso povo e um mérito também — reconheçamos — do Partido Comunista de Cuba, dos atuais dirigentes e governantes. Buscar e implementar alternativas mínimas e viáveis de sobrevivência para todas e todos foi e é um trabalho a reconhecer em nossos quadros do Partido e do Governo.

  A solidariedade e a ajuda internacionais, o que foi alcançado nesse terreno, não pode nos desmobilizar. O perigo é real. A certeza de elevar a preparação militar, de exercitar semana após semana as forças, os planos e os meios combativos da Guerra de Todo o Povo, são a decisão mais louvável que a direção da Revolução assume. A decisão que mais consenso e apoio precisa. É garantia de segurança, de paz. É a continuidade do dever que nos acompanha e nos ordena.

  Permito-me agradecer a todas e todos os que, com seu esforço decente e digno, patriótico, lideram a imensa resistência dos cubanos e cubanas. E me refiro aos muito certeiros, e aos que teremos de renovar. Honrar honra.

  Agradecer a todos os solidários do mundo e, nesse abraço, ter um espaço grande e bonito para nossos camaradas de direção, resulta, a meu ver, um elementar exercício de consciência e justiça histórica. Obrigado, companheiros, irmãos.

  Reconhecer esforços, abraçarmo-nos, não faz perder um ápice da exigência, do controle popular, da emulação por sermos melhores, da crítica para sanear, aperfeiçoar e mudar em sentido qualitativo, em critério e ordem fidelista…

*Professor e pesquisador cubano, doutor em Ciências Pedagógicas. Autor de diversos livros e inúmeros artigos sobre política, história e educação. Em visita ao Brasil nesse mês de abril de 2026, com conferências em Brasília (dias 6 e 7, no Programa de Pós-Graduação em Política Social, da UnB), no Rio de Janeiro (dia 13, às 15h30m, na Associação Brasileira de Imprensa), em São Paulo (dia 15, na EACH – USP Leste, às 19h), em Belo Horizonte (dia 17, às 19h, na Faculdade de Direito da UFMG).

Tradução do original em espanhol: Lina Noronha

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