CUBA RESISTE E VENCERÁ

GAESA, Havana, 7 de maio de 2026 

Foto: YAMIL LAGE / AFP*

Por: Marcia Choueri

Neste artigo, apresentamos um resumo das medidas econômicas que estão sendo adotadas por Cuba, para enfrentar a crise econômica e energética atual, que, como todos sabemos, foi criada e está sendo fomentada pelo bloqueio econômico, comercial e financeiro que o governo dos Estados Unidos impõe à Ilha há mais de 60 anos, agravado pelas medidas mais recentes de Trump e seu cúmplice Narco Rubio.
Este artigo traz informações e análises expostas em um vídeo publicado no grupo Cuba x Siempre do Facebook.

Quando um país está contra a parede, sem margem de manobra, tem duas opções: paralisar-se e esperar o colapso, ou mover-se com inteligência, para poder sobreviver. E Cuba escolheu o segundo.

   Em reunião de 18 de junho de 2026, a Assembleia Nacional do Poder Popular aprovou uma ampla e profunda reforma das instituições econômicas do país, considerada a mais abrangente, desde o período especial. Para quem não sabe, o período especial – que o Comandante Fidel Castro apresentou como sendo de economia de guerra em tempo de paz – foi a reforma que permitiu a Cuba superar – ainda que com enormes sacrifícios – as mudanças advindas do desaparecimento dos regimes socialistas do Leste europeu.
   As medidas que acabam de ser aprovadas surgiram de um grupo constituído por economistas
e outros especialistas, formado especificamente para elaborar uma proposta para o país enfrentar e superar a crise atual.
   Ao defender as medidas ante o Comitê Central, o presidente Díaz-Canel foi contundente: “Cuba vive as horas mais difíceis deste século”, e acrescentou: “a realidade impõe mudanças urgentes e necessárias”.
   A reforma, como era de se esperar, está provocando reações intensas e variadas, que têm em
comum a certeza de que é preciso fazer algo com urgência, associada ao temor de perder conquistas históricas do caminho de Cuba para o Socialismo.
   Entre essas posições, podemos encontrar, grosso modo:

  •  os que temem que já se perdeu o rumo, que estão à deriva;
  • os que acham a reforma semelhante à Perestroika soviética e temem que se cometam os mesmos erros que levaram à derrota do socialismo;
  • os que confiam no processo e entendem que sem transformação não há salvação;
  • e os que simplesmente se perguntam: aonde vamos realmente?

Por que agora? Por que um pacote dessa magnitude?

   Vamos responder esta pergunta, estabelecendo o contexto:
   No plano interno, porque Cuba está em meio a uma tormenta, com apagões contínuos, de períodos que já superaram 20 horas; com uma inflação que corrói o poder aquisitivo da população, agravando as condições de vida; e um câmbio em que o dólar, em apenas três meses, disparou de 515 a 680 pesos. Para entender melhor este resumo da situação, é importante saber que parte do mercado interno de bens de consumo, especialmente de alimentos, já está em mãos de empresas privadas de micro, pequeno e médio portes, e que essas empresas regulam seus preços pela moeda internacional, incidindo diretamente sobre o cotidiano de toda a população.
   No plano externo, porque a administração Trump, tendo Narco Rubio à frente da política de máxima pressão contra a Ilha, cortou o fluxo de combustíveis, sancionou a Cupet – empresa cubana distribuidora de combustíveis – e ameaça qualquer banco ou empresa estrangeira que negocie com Cuba.

Agrupando o essencial das medidas

   A reforma está constituída por 176 medidas, distribuídas em 23 eixos estratégicos.

  1. O novo papel da empresa estatal: até este momento, um dirigente de empresa não podia alterar salários nem buscar clientes, sem passar por uma longa cadeia burocrática. Agora, a empresa estatal ganha autonomia real, poderá negociar preços, reestruturar-se e, inclusive, transformar-se em sociedade mercantil por ações. O Estado mantém a propriedade desses setores estratégicos, mas descentraliza a gestão. Isso é o que a China fez, a partir dos anos 80, para poder modernizar seu setor estatal, sem privatizá-lo. E o Partido Comunista Chinês continua governando.
  2. O campo: pela primeira vez, autoriza-se a empresa privada agropecuária; e as cooperativas poderão exportar diretamente, buscar financiamento externo e abrir contas no exterior. Essa mudança se parece ao modelo vietnamita. O Vietnã aplicou-o, a partir da década de 80, e passou de uma situação de insegurança alimentar a ser um dos maiores exportadores de arroz do mundo. E o Partido Comunista do Vietnã continua governando.
  3. O tema mais sensível: a transformação dos subsídios. A proposta é transitar do subsídio universal por produto (a famosa libreta) a um sistema de ajuda direta focalizada nas pessoas vulneráveis. Essa proposta não é nova, já havia sido aventada anteriormente, porque a situação econômica do país – que já não vinha bem e se agravou bastante com a pandemia – levou a uma redução da capacidade estatal de oferta de subsídios. Na prática, a libreta igualitária para todos os cidadãos provocava que os mais vulneráveis recebessem menos que o necessário, para garantir que quem não precisa receba também. Um detalhe crucial: constitui-se o Fundo de Proteção Social como condição prévia à eliminação dos subsídios. A grande lição do colapso soviético foi eliminar as proteções sem ter uma rede preparada para evitar um caos social, e Cuba está invertendo essa ordem.
  4. Transformações trabalhistas: introduz-se a possibilidade de dispensa de trabalhadores no setor estatal por razões econômicas, com uma compensação de entre três e seis salários. É o mais preocupante, mas o exemplo chinês mostra que é possível. Nos anos 90, a China recolocou milhões de trabalhadores de empresas estatais ineficientes. Foi um processo doloroso, mas foi a base do crescimento industrial que tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza.
  5. Foi criado um Grupo de Controle no nível mais alto, liderado pelo Comitê Central e com a participação da Procuradoria, da Controladoria e do Ministério do Interior. Sua missão é supervisionar a implementação das medidas, para que essas mudanças não degenerem em corrupção, nem em tráfico de influência. Esta medida trata de blindar o processo contra desvios desde o início.

   A pergunta que fica: Cuba está seguindo o caminho sino-vietnamita ou o soviético? Pelo desenho, pelas comparações históricas, inclina-se mais ao modelo asiático: autonomia econômica com controle político, abertura gradual com mecanismos de supervisão, proteção social.
   Mas o desenho não é tudo. O sucesso dependerá da implementação, da disciplina, da sequência, da capacidade de corrigir ao longo do percurso sem perder o rumo.
   As medidas exigem coragem, mas se impõem pela necessidade histórica criada pelo bloqueio asfixiante, que não dá trégua. Nessas condições, a inação não é pureza revolucionária, é suicídio.

   A Revolução Cubana está há mais de 60 anos demonstrando sua capacidade de resistência: sobreviveu a dez presidentes norte-americanos, a um bloqueio desumano e à queda do campo socialista soviético. E estamos seguros de que seguirá, com soberania e a direção do Partido Comunista Cubano, em seu caminho para o Socialismo.

*https://www.brasildefato.com.br/2026/06/24/reforma-sob-cerco-entendendo-as-novas-medidas-economicas-de-cuba/

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