Com todos e para o bem de todos
Retrato de Martí, 1891
Hernan Norman, Óleo sobre tela, 56 x 46,1 cm. Coleção Casa Natal de José Martí
Fonte: josemarti.cu
Este discurso foi proferido por José Martí no Liceu Cubano, em Tampa, em 26 de novembro de 1891. Foi tomado taquigraficamente e depois reproduzido sob o título “Com todos e para o bem de todos” e distribuído em folhas soltas.
Cubanos:
Para Cuba, que sofre, a primeira palavra. Como altar, se há de tomar Cuba, para ofertar-lhe nossa vida, e não como pedestal, para nos erguermos sobre ela.
E agora, depois de evocado seu amadíssimo nome, derramarei a ternura de minha alma sobre estas mãos generosas que – não a desoras, certamente! – acodem a dar-me forças para a contenda da edificação. Agora, postos os olhos mais acima de nossas cabeças e o coração inteiro extraído de mim mesmo, não darei graças egoístas aos que creem ver em mim as virtudes que de mim e de cada cubano desejam; nem ao cordial Carbonell, nem ao bravo Rivero, darei graças pela hospitalidade magnífica de suas palavras, e pelo calor de seu carinho generoso, mas todas as graças de minha alma, por este povo de amor, lhes darei, e neles a todos que têm aqui as mãos postas na tarefa de fundar, que levantaram, cara a cara com o dono cobiçoso que nos vigia e nos divide.
Por este povo de virtude, onde se prova a força livre de nossa pátria trabalhadora; por este povo culto, que tem a mesa de pensar ao lado da de ganhar o pão, e trovões de Mirabeau junto a artes de Roland, que é resposta de sobra aos desdenhosos deste mundo; por este templo orlado de heróis e erguido sobre corações, eu abraço a todos os que sabem amar. Eu trago a estrela, e trago a pomba em meu coração.
Não nos reúne aqui, de puro esforço e como a contragosto, o respeito periódico a uma ideia de que não se pode abdicar sem desonra; nem a resposta sempre rápida – e às vezes demasiado rápida – dos corações pátrios a um solicitante de fama, ou a um alucinado de poder, ou a um herói que não coroa a ânsia inoportuna de morrer com o heroísmo superior de reprimi-la, ou a um necessitado que, sob a capa da pátria, anda estendendo a mão mendicante. Nem o que vem se manchará jamais com a lisonja, nem é este nobre povo que o recebe, povo de gente servil e influenciável.
Meu peito se infla de orgulho, e amo ainda mais a minha pátria desde agora, e creio ainda mais, desde agora, em seu porvir ordenado e sereno, no porvir redimido do perigo grave de seguir cegamente, em nome da liberdade, aos que se valem do anseio dela para desviá-la em benefício próprio; creio ainda mais na república de olhos abertos, nem insensata nem tímida, nem togada nem descabelada, nem superculta nem inculta, agora que vejo, pelos avisos sagrados do coração, juntos nesta noite de força e pensamento, juntos para agora e para depois, juntos enquanto imperar o patriotismo, os cubanos que põem sua opinião franca e livre acima de todas as coisas – e a um cubano que as respeita.
Porque, se nas coisas de minha pátria me fosse dado preferir um bem a todos os demais, um bem fundamental, que, de todos os do país, fosse base e princípio, e sem o qual os demais bens seriam falazes e movediços, este seria o bem que eu preferiria:
eu quero que a lei primeira da nossa república seja o culto dos cubanos
à dignidade plena do homem.
Na face há de sentir, todo homem verdadeiro, o golpe que receba qualquer face de homem: envilece os povos desde o berço, o hábito de recorrer a camarilhas pessoais, fomentadas por um interesse notório ou encoberto, para a defesa das liberdades.
Ponha-se a brilhar, e a incendiar as almas, e a vibrar como o raio, a verdade; e sigam-na, livres, os homens honrados. Levante-se acima de todas as coisas esta terna consideração, este vigoroso tributo de cada cubano a outro. Nem mistérios, nem calúnias, nem empenho em desacreditar, nem longas e astutas preparações para o dia funesto da ambição.
Ou a república tem por base o caráter inteiro de cada um de seus filhos, o hábito de trabalhar com suas mãos e pensar por si próprio, o exercício íntegro de si e o respeito, como de honra de família, ao exercício íntegro dos demais, a paixão, enfim, pelo decoro do homem, ou a república não vale uma lágrima de nossas mulheres, nem uma só gota de sangue de nossos bravos. Para verdades trabalhamos, e não para sonhos. Para libertar os cubanos trabalhamos, e não para acuá-los. Para ajustar, na paz e na equidade, os interesses e direitos dos habitantes leais de Cuba, trabalhamos, e não para erigir, à boca do continente, da república, a mordomia espantada de Veintimilla, ou a fazenda sangrenta de Rosas, ou o Paraguai lúgubre de Francia[1]! Ignacio de Veintimilla, presidente da República do Equador entre 1876 e 1883. Juan Manuel de Rosas, controlou a política da Argentina entre 1829 e 1852. José Gaspar Rodríguez de Francia, governou o Paraguai de 1814 a 1840.
[1] Melhor cair sob os excessos do caráter imperfeito de nossos compatriotas, que valer-se do crédito adquirido com as armas da guerra ou as da palavra para rebaixar-lhes o caráter!
Este é meu único qualificativo a estes carinhos, que vieram a tempo de robustecer minhas mãos incansáveis no serviço da verdadeira liberdade. Mordam-mas os mesmos a quem anseio elevar mais, e – não minto! – amarei a mordida, porque vem da fúria da minha própria terra, e porque por ela verei, bravo e rebelde, um coração cubano! Unamo-nos, acima de tudo, nesta fé; juntemos as mãos, em penhor dessa decisão, onde todos as vejam, e onde não se esquece sem castigo; cerremos o passo à república que não venha preparada por meios dignos do decoro do homem, para o bem e a prosperidade de todos os cubanos!
De todos os cubanos! Eu não sei que mistério de ternura tem esta dulcíssima palavra, nem que sabor tão puro sobre o da própria palavra homem, que é já tão bela, que, se a pronunciamos como se deve, parece que o ar é como nimbo de ouro, e é trono ou cume de monte, a natureza! Diz-se cubano, e uma doçura como de suave irmandade se espalha por nossas entranhas, e abre-se sozinha a caixa de nossas economias, e nos apertamos para fazer um lugar a mais na mesa, e lança asas o coração enamorado, para amparar quem nasceu na mesma terra que nós, ainda que o pecado o transtorne, ou a ignorância o extravie, ou a ira o enfureça, ou o crime o ensanguente! Como se uns braços divinos que não vemos nos apertassem a todos sobre um peito em que ainda corre sangue e ainda se ouve soluçar o coração!
Crie-se lá em nossa pátria, para nos exigir depois esforço de compaixão, crie-se, onde o dono corrompido apodrece tudo que mira, uma alma cubana nova, eriçada e hostil, uma alma tosca, distinta daquela alma caseira e magnânima de nossos pais e filha natural da miséria, que vê triunfar o vício impune, e da cultura inútil, que só encontra uso na contemplação surda de si mesma! Aqui, onde velamos pelos ausentes, onde repomos a casa que lá nos desaba em cima, onde criamos o que há de substituir o que lá se nos destrói, aqui não há palavra que se assemelhe mais à luz do amanhecer, nem consolo que entre com mais ventura por nosso coração, que esta palavra inefável e ardente: cubano!
Porque isto é esta cidade, isto é a emigração cubana inteira, isto é o que vimos fazendo nestes anos de trabalho sem economia, de família sem gosto, de vida sem sabor, de morte dissimulada! À pátria que lá cai em pedaços e ficou cega da podridão, há que levar a pátria piedosa e previdente que aqui se levanta! Ao que resta de pátria lá, mordido por todo lado pela gangrena que começa a roer o coração, há que juntar a pátria amiga onde fomos, aqui na solidão, acomodando a alma, com as mãos firmes que o bom carinho pede, às realidades todas, de fora e de dentro, tão bem ocultas lá, em uns, pela desesperação e, em outros, pelo gozo babilônico, que, mesmo sendo grandes certezas e grandes esperanças e grandes perigos, são, até para os experientes, pouco menos que desconhecidas!
Pois, o que sabem lá desta noite gloriosa de ressurreição, da fé determinada e metódica dos nossos espíritos, da aproximação contínua e crescente dos cubanos de fora, que os erros dos dez anos[2] e as veleidades naturais de Cuba, e outras causas maléficas não conseguiram por fim dividir, senão juntar tão íntima e carinhosamente, que não se vê senão uma águia que sobe, e um sol que vai nascendo, e um exército que avança? O que sabem lá destes tratos sutis, que ninguém prepara nem pode deter, entre o país desesperado e os emigrados que esperam? O que sabem deste nosso caráter fortalecido, de terra em terra, pela prova cruenta e o exercício diário? O que sabem do povo liberal, e feroz, e trabalhador, que vamos levar-lhes? O que sabe, o que agoniza na noite, do que o espera com os braços abertos na aurora? Carregar barcos pode qualquer carregador; e pôr mecha ao canhão, qualquer artilheiro pode; mas não foi essa tarefa menor, e de trivial resultado e oportunidade, a única tarefa do nosso dever, senão a de evitar as consequências daninhas, e acelerar as felizes, da guerra próxima e inevitável, e ir limpando-a, como cabe no humano, do desamor e do descuido e dos ciúmes que a pudessem pôr onde, sem necessidade nem desculpa, nos puseram a anterior, e disciplinar nossas almas livres no conhecimento e ordem dos elementos reais do nosso país, e no trabalho que é o ar e o sol da liberdade, para que caibam nela sem perigo, junto às forças criadoras de uma situação nova, aqueles resíduos inevitáveis das crises revoltas que são necessárias para constituí-las. E as mãos nos doerão mais de uma vez na tarefa sublime, mas os mortos estão mandando, e aconselhando, e vigiando, e os vivos os ouvem e os obedecem, e se ouve no vento ruído de ajudantes que passam levando ordens, e de estandartes que se desfraldam!
Unamo-nos, cubanos, nesta outra fé, com todos e para todos: a guerra inevitável, de modo que a pátria a respeite e a deseje e a ajude, e o inimigo não a mate, em flor, por local ou por pessoal ou por incompleta. A revolução de justiça e de realidade, para o reconhecimento e a prática franca das liberdades verdadeiras.
Nem os bravos da guerra que me ouvem têm pazes com estas análises miúdas das coisas públicas, porque ao entusiasta parece crime a própria demora da sensatez em pôr por obra o entusiasmo; nem nossa mulher, que aqui ouve atenta, sonha mais que em voltar a pisar a terra própria, onde seu companheiro não há de viver agreste como aqui vive e taciturno; nem o menino, irmão ou filho de mártires e de heróis, nutrido em suas lendas, pensa em mais do que no belo de morrer a cavalo, lutando pelo país, ao pé de uma palmeira!
É o meu sonho, é o sonho de todos. As palmeiras são noivas que esperam, e havemos de pôr a justiça tão alta como as palmeiras! Isso é o que queríamos dizer. À guerra do arranque, que caiu na desordem, há de suceder, por insistência dos males públicos, a guerra da necessidade, que viria frouxa e sem probabilidade de vencer, se não lhe desse sua pujança aquele amor inteligente e forte do direito, por onde as almas mais ansiosas dele recolhem da sepultura o estandarte que os menos necessitados de justiça deixaram cair, cansados do primeiro esforço. Seu direito de homens é o que buscam os cubanos em sua independência; e a independência se há de buscar com alma inteira de homem. Que Cuba, desolada, volta a nós os olhos! Que os meninos ensaiam nos troncos dos caminhos a força de seus braços novos! Que as guerras estouram, quando há causas para elas, da impaciência de um valente ou de um grão de milho! Que a alma cubana se está pondo em fila, e se veem já, como ao alvorecer, as massas confusas! Que o inimigo, menos surpreendido hoje, menos interessado, não tem na terra os cabedais que houve de defender na vez passada, nem havemos de nos entreter tanto como então em dizes e contradizes de localidade, nem em competências de comando, nem em invejas de povo, nem em esperanças loucas! Que fora temos o amor no coração, os olhos na costa, a mão na América, e a alma ao cinto! Pois quem não lê no ar tudo isso com letras de luz? E com letras de luz se há de ler que não buscamos, neste novo sacrifício, meras formas, nem a perpetuação da alma colonial em nossa vida, com novidades de uniforme ianque, mas a essência e realidade de um país republicano nosso, sem medo canhestro de uns à expressão saudável de todas as ideias e ao emprego honrado de todas as energias, – nem, de parte de outros, àquele roubo ao homem que consiste em pretender imperar, em nome da liberdade, por violências em que se prescinde do direito dos demais às garantias e aos métodos dela. Por certo, que nos jogarão atrás, os almofadinhas da política, que esquecem como é necessário contar com o que não se pode suprimir, – e que se porá a resmungar, o patriotismo de pó-de-arroz, sob pretexto de que os povos, no suor da criação, nem sempre exalam perfume de cravos. E o que havemos de fazer? Sem os vermes que fabricam a terra, não se poderiam fazer palácios suntuosos! Na verdade, há que entrar com a camisa arregaçada até o cotovelo, como entra na carcaça, o açougueiro. Tudo o que é verdadeiro é santo, ainda que não cheire a cravo. Tudo tem a entranha feia e sangrenta: é lama nas bateias, o ouro em que o artista talha depois suas joias maravilhosas; do fétido da vida, tira açúcar a fruta, e cores a flor; nasce o homem da dor e da treva do seio maternal, e do alarido e do desgarramento sublime; e as forças magníficas e correntes de fogo que no forno do sol se precipitam e confundem, não parecem de longe, aos olhos humanos, senão manchas! Passagem aos que não têm medo da luz; caridade para os que tremem de seus raios!
Nem veria eu com carinho essa bandeira, feito como estou sabendo que o mais santo se toma como instrumento do interesse pelos triunfadores audazes deste mundo, se não cresse que em suas dobras há de vir a liberdade inteira, quando o reconhecimento cordial do decoro de cada cubano, e dos modos equitativos de ajustar os conflitos de seus interesses, tire razão àqueles conselheiros de métodos confusos que só têm de terríveis o que tem de teimosa, a paixão que se nega a reconhecer quanto há de equitativo e justiceiro em suas demandas. Crave-se a língua do adulador popular, e pendure-se ao vento como bandeirola de ignomínia, onde seja castigo dos que adiantam suas ambições, açulando em vão o sofrimento dos que padecem, ou ocultando-lhes verdades essenciais de seu problema, ou levantando-lhes a ira: – e, ao lado da língua dos aduladores, crave-se a dos que se negam à justiça!
Crave-se a língua do adulador onde todos a vejam, e a dos que tomam por pretexto os exageros a que tem direito a ignorância, e que não pode acusar quem não ponha todos os meios de fazer cessar a ignorância, para se negar a acatar o que há de dor de homem e de agonia sagrada nos exageros, que é mais cômodo excomungar, de toga e solidéu, que estudar, choroso o coração, com a dor humana até os cotovelos!
No presídio da vida, é necessário pôr, para que aprendam justiça, os juízes da vida. O que julgue de tudo, que conheça tudo. Não julgue depressa, o de cima, nem por um lado; não julgue, o de baixo, por um lado nem depressa. Não censure, o ciumento, o bem-estar que inveja em segredo. Não desconheça, o abastado, o poema comovente, e o sacrifício cruento, do que tem que cavar o pão que come; de sua sofrida companheira, coroada de coroa que o injusto não vê; dos filhos que não têm o que têm os filhos dos outros pelo mundo! Valeria mais que não se desfraldasse essa bandeira de seu mastro, se não houvesse de amparar por igual a todas as cabeças!
Muito mal conhece nossa pátria, conhece-a muito mal, quem não sabe que há nela, como alma do presente e garantia do futuro, uma enérgica soma daquela liberdade original que cria o homem em si, do sumo da terra e das dores que vê e de sua ideia própria e de sua natureza altiva. Com esta liberdade real e pujante, que só pode pecar pela falta da cultura que é fácil pôr nela, hão de contar mais os políticos de carne e osso, do que com essa liberdade de amadores que aprendem nos catecismos da França ou da Inglaterra, os políticos de papel. Homens somos, e não vamos querer governos de tesouras e figurinos, senão trabalho de nossas cabeças, tirado do molde do nosso país.
Muito mal conhece nosso povo, quem não vê como nele, a par desse ímpeto nativo que o levanta para a guerra e não o deixará dormir na paz, criou-se, com a experiência e o estudo e certa ciência clara que dá nossa terra formosa, um acúmulo de forças de ordem, humanas e cultas; uma falange de inteligências plenas, fecundadas pelo amor ao homem – sem o qual a inteligência não é mais que açoite e crime –; uma concórdia tão íntima, vinda da dor comum entre os cubanos de direito natural, sem história e sem livros, e os cubanos que puseram no estudo a paixão que não podiam pôr na elaboração da pátria nova; uma irmandade tão fervente entre os escravos ínfimos da vida e os escravos de uma tirania aniquiladora, que, por este amor unânime e abrasante de justiça dos de um ofício, e dos de outro; por este ardor de humanidade igualmente sincero nos que levam o pescoço alto, porque têm alta a nuca natural, e nos que o levam baixo, porque a moda manda mostrar o pescoço bonito; por esta pátria veemente em que se reúnem com iguais sonhos, e com igual honradez, aqueles a quem poderia divorciar o diverso estado de cultura – sujeitará nossa Cuba, livre na harmonia da equidade, a mão da colônia que não deixará a seu tempo de vir-nos em cima, disfarçada com a luva da república. E cuidado, cubanos, que há luvas tão bem imitadas, que não se diferenciam da mão natural! A todo aquele que venha pedir poder, cubanos, há que dizer-lhe à luz, onde se veja bem a mão – mão ou luva? Mas não há que temer em verdade, nem há que ralhar. Isso mesmo que havemos de combater, isso mesmo nos é necessário. Tão necessário é aos povos o que sujeita como o que empurra; tão necessário é na casa de família o pai, sempre ativo, como a mãe, sempre temerosa. Há política homem e política mulher. Locomotiva com caldeira que a faça andar, e sem freio que a detenha a tempo? É preciso, em coisas de povos, levar o freio numa mão, e a caldeira na outra. E por aí padecem os povos: pelo excesso de freio, e pelo excesso de caldeira.
A que, pois, é que havemos de temer? Ao decaimento de nosso entusiasmo, ao ilusório de nossa fé, ao pequeno número dos infatigáveis, à desordem de nossas esperanças? Pois olho para esta sala e sinto firme e estável a terra sob meus pés, e digo: “Mentem.” E olho para meu coração, que não é mais que um coração cubano, e digo: “Mentem.”
Teremos medo aos hábitos de autoridade contraídos na guerra, e de certo modo ungidos pelo desdém diário da morte? Pois não conheço eu o que tem de brava a alma cubana, e de sagaz e experimentado o juízo de Cuba? E o que haveriam de contar as autoridades velhas com as autoridades virgens, e aquele admirável concerto de pensamento republicano e ação heroica que honra, quase sem exceções, os cubanos que carregaram armas? Ou, como conheço tudo isso, ao que diga que de nossos veteranos há que esperar esse amor criminoso de si, essa postergação da pátria a seu interesse, essa traição iníqua a seu país, digo-lhe: “Mentem!”
Ou nos há de fazer recuar, o medo às tribulações da guerra, açulado por gente impura que está a soldo do governo espanhol; o medo de andar descalço, que é um modo de andar já muito comum em Cuba, porque, entre os ladrões e os que os ajudam, já não têm em Cuba sapatos senão os cúmplices e os ladrões? Pois, como eu sei que o mesmo que escreve um livro para atiçar o medo à guerra, disse em versos, muito bons aliás, que a hutía[3] basta a todas as necessidades do campo em Cuba, e sei que Cuba está outra vez cheia de hutías, volto-me aos que nos querem assustar com o mesmo sacrifício que apetecemos, e lhes digo: “Mentem”.
Teremos medo do que mais sofreu pela privação da liberdade em Cuba, no país onde o sangue que derramou por ela a fez amar demasiado para ameaçá-la? Teremos medo ao negro, ao negro generoso, ao irmão negro, que nos cubanos que morreram por ela perdoou para sempre os cubanos que ainda o maltratam? Pois eu sei de mãos de negro que estão mais dentro da virtude do que a de qualquer branco que conheço. Eu sei do amor negro à liberdade sensata, que só na intensidade maior e natural e útil se diferencia do amor à liberdade do cubano branco. Eu sei que o negro ergueu o corpo nobre, e está se pondo de coluna ereta das liberdades pátrias. Outros o temam: eu o amo. A quem diga mal dele, mesmo que não o conheça, digo de boca cheia: “Mentem”.
Ao espanhol em Cuba, havemos de temer? Ao espanhol armado, que não nos pôde vencer por seu valor, senão por nossas invejas, nada mais que por nossas invejas? Ao espanhol que tem no Sardinero ou na Rambla[4] seu cabedal e se irá com seu cabedal, que é sua única pátria; ou ao que o tem em Cuba, por apego à terra ou pela raiz dos filhos, e por medo ao castigo oporá pouca resistência, e por seus filhos? Ao espanhol simples, que ama a liberdade como a amamos nós, e busca conosco uma pátria na justiça, superior ao apego a uma pátria incapaz e injusta; ao espanhol que padece, junto a sua mulher cubana, do desamparo irremediável e do mísero porvir dos filhos que nasceram com o estigma de fome e perseguição, com o decreto de desterro em seu próprio país, com a sentença de morte em vida com que vêm ao mundo os cubanos? Temer ao espanhol liberal e bom, a meu pai valenciano, a meu fiador montanhês, ao gaditano que velava meu sono febril, ao catalão que jurava e renegava parecer-se ao nativo, ao malaguenho que tira do hospital, em suas costas, o cubano desvalido, ao galego que morre na neve estrangeira, ao voltar de deixar o pão do mês na casa do general em chefe da guerra cubana? Pela liberdade do homem se luta em Cuba, e há muitos espanhóis que amam a liberdade! Estes espanhóis serão atacados pelos outros; eu os ampararei toda minha vida! Aos que não sabem que esses espanhóis são outros tantos cubanos, dizemos: “Mentem!”
E temeremos a neve estrangeira? Os que não sabem lidar com suas mãos na vida, ou medem o coração dos demais por seu coração assustadiço, ou creem que os povos são meros tabuleiros de xadrez, ou estão tão criados na escravidão, que precisam de quem lhes segure o estribo para sair dela, esses buscarão, num povo de componentes estranhos e hostis, a república que só assegura o bem-estar quando se lhe administra de acordo com o próprio caráter, e de modo que se acenda e realce. A quem creia que faltam aos cubanos coragem e capacidade para viver por si na terra criada por seu valor, dizemos: “Mentem”.
E aos grã-finos que desdenham hoje esta revolução santa, cujos primeiros guias e mártires foram homens nascidos no mármore e seda da fortuna, esta santa revolução que no espaço mais breve irmanou, pela virtude redentora das guerras justas, o primogênito heroico e o camponês sem herança, o dono de homens e seus escravos; aos deuses de peso de papel, que descem do tripé calunioso para perguntar aterrados, e já com ânimos de submissão, se pôs o pé em terra este lutador ou o outro, a fim de pôr em paz a alma com quem pode amanhã distribuir o poder; aos empavonados que fomentam deliberadamente o engano dos que creem que este magnífico movimento de almas, esta ideia acesa da redenção decorosa, este desejo triste e firme da guerra inevitável, não é mais que a teimosia de um retardatário indômito, ou a correria de um general sem emprego, ou a algazarra dos que não gozam de uma riqueza que só se pode manter pela cumplicidade com a desonra, ou a ameaça de uma turba operária, com ódio em lugar do coração e papeluchos por miolos, que irá, como do cabresto, por onde a queira levar o primeiro ambicioso que a adule, ou o primeiro déspota encoberto que lhe passe pelos olhos a bandeira, – a grã-finos, ou a deuses, e a empavonados – diremos: “Mentem.”
Esta é a turba operária, a arca de nossa aliança, o talim, bordado de mão de mulher, onde se tem guardado a espada de Cuba, o areal redentor onde se edifica, e se perdoa, e se prevê, e se ama!
Basta, basta de meras palavras! Para lisonjear-nos, não estamos aqui, senão para apalpar-nos os corações, e ver que vivem sãos, e que podem; para ir-nos ensinando, aos desesperançados, aos desbandados, aos melancólicos, em nossa força de ideia e de ação, na virtude provada que assegura a ventura por vir, em nosso tamanho real, que não é de presunçoso, nem de teorizante, nem de salmodiante, nem de melômano, nem de caça-nuvens, nem de mendigo. Já somos alguns, e podemos ir ao fim: conhecemos o mal, e trataremos de não recair; a puro amor e paciência, congregamos o que ficou disperso, e convertemos em ordem entusiasta o que era, depois da catástrofe, desconcerto receoso; procuramos a boa-fé, e cremos ter conseguido suprimir ou reprimir os vícios que causaram nossa derrota, e juntar, com modos sinceros e para fim duradouro, os elementos conhecidos ou esboçados, com cuja união se pode levar a guerra iminente ao triunfo. Agora, a formar filas! Com esperar, lá no fundo da alma, não se fundam povos! Diante de mim, volto a ver os estandartes, dando ordens; e parece-me que o mar que de lá vem, carregado de esperança e de dor, rompe a muralha da terra alheia em que vivemos, e rebenta contra essas portas suas ondas alvoroçadas… Lá está, sufocada nos braços que a apertam e corrompem! Lá está, ferida na fronte, ferida no coração, presidindo, atada à cadeira de tortura, o banquete onde os punhos de galão de ouro põem o vinho do veneno nos lábios dos filhos que esqueceram seus pais! E o pai morreu cara a cara com o alferes, e o filho vai, de braços com o alferes, apodrecer-se na orgia! Basta de meras palavras! Das entranhas dilaceradas, levantemos um amor inextinguível pela pátria, sem a qual nenhum homem vive feliz, nem o bom, nem o mau. Lá está, de lá nos chama, ouve-se que geme, violam-na e a escarnecem e a gangrenam a nossos olhos, corrompem e despedaçam a mãe de nosso coração! Pois ergamo-nos de uma vez, de uma arremetida última dos corações, ergamo-nos de maneira que não corra perigo a liberdade no triunfo, pela desordem ou pela torpeza ou pela impaciência em prepará-la; ergamo-nos, para a república verdadeira, os que por nossa paixão pelo direito e por nosso hábito do trabalho saberemos mantê-la; ergamo-nos para dar sepultura aos heróis cujo espírito vaga pelo mundo, envergonhado e solitário; ergamo-nos para que algum dia tenham sepultura nossos filhos! E ponhamos ao redor da estrela, na bandeira nova, esta fórmula do amor triunfante: “Com todos, e para o bem de todos”.
(Tradução: Marcia Choueri)
[1] Ignacio de Veintimilla, presidente da República do Equador entre 1876 e 1883. Juan Manuel de Rosas, controlou a política da Argentina entre 1829 e 1852. José Gaspar Rodríguez de Francia, governou o Paraguai de 1814 a 1840.
[2] Alusão à Guerra dos Dez Anos (1868-1878), primeiro grande conflito armado de Cuba por sua independência da Espanha.
[3] Mamífero roedor nativo do Caribe, era consumida como alimento pelos povos da Ilha desde a época pré-colombiana.
[4] Sardinero: estância balneária no mar Cantábrico; La Rambla: bulevar urbano de Barcelona. Ambas as referências fazem alusão ao espanhol abastado.
Con todos y para el bien de todos
José Martí, 1896
Federico Edelman, José Martí, 1896. Carboncillo sobre papel, 57 x 45 cm. Colección Museo Nacional de Bellas Artes
Fonte: josemarti.cu
Este discurso fue dado por José Martí en el Liceo Cubano en Tampa el 26 de noviembre de 1891. El señor Francisco María Gonzáles lo tomó taquigráficamente y después fue reproducido bajo el nombre de “Con todos y para el bien de todos” y distribuido en hojas sueltas.
Cubanos: |
Para Cuba que sufre, la primera palabra. De altar se ha de tomar a Cuba, para ofrendarle nuestra vida, y no de pedestal, para levantarnos sobre ella. Y ahora, después de evocado su amadísimo nombre, derramaré la ternura de mi alma sobre estas manos generosas que ¡no a deshora por cierto! acuden a dármele fuerzas para la agonía de la edificación; ahora, puestos los ojos más arriba de nuestras cabezas y el corazón entero sacado de mí mismo, no daré gracias egoístas a los que creen ver en mí las virtudes que de mí y de cada cubano desean; ni al cordial Carbonell, ni al bravo Rivero, daré gracias por la hospitalidad magnífica de sus palabras, y el fuego de su cariño generoso; sino que todas las gracias de mi alma les daré, y en ellos a cuantos tienen aquí las manos puestas a la faena de fundar, por este pueblo de amor que han levantado cara a cara del dueño codicioso que nos acecha y nos divide; por este pueblo de virtud, en donde se aprueba la fuerza libre de nuestra patria trabajadora; por este pueblo culto, con la mesa de pensar al lado de la de ganar el pan, y truenos de Mirabeau junto a artes de Roland, que es respuesta de sobra a los desdeñosos de este mundo; por este templo orlado de héroes y alzado sobre corazones. Yo abrazo a todos los que saben amar. Yo traigo la estrella, y traigo la paloma en mi corazón. |
No nos reúne aquí, de puro esfuerzo y como a regañadientes, el respeto periódico a una idea de que no se puede adjurar sin deshonor; ni la respuesta siempre pronta, y a veces demasiado pronta, de los corazones patrios a un solicitante de fama, o a un alocado de poder, o a un héroe que no corona el ansia inoportuna de morir con el heroísmo superior de reprimirla, o a un menesteroso que bajo la capa de la patria anda sacando la mano limosnera. Ni el que viene se afeará jamás con la lisonja, ni es este noble pueblo que lo recibe pueblo de gente servil y llevadiza. Se me hincha el pecho de orgullo, y amo aún más a mi patria desde ahora, y creo aún más desde ahora en su porvenir ordenado y sereno, en el porvenir, redimido del peligro grave de seguir a ciegas, en nombre de la libertad, a los que se valen del anhelo de ella para desviarla en beneficio propio; creo aún más en la república de ojos abiertos, ni insensata ni tímida, ni togada ni descuellada, ni sobreculta ni inculta, desde que veo, por los avisos sagrados del corazón, juntos en esta noche de fuerza y pensamiento, juntos para ahora y para después, juntos para mientras impere el patriotismo, a los cubanos que ponen su opinión franca y libre por sobre todas las cosas, -y a un cubano que se las respeta. |
Porque si en las cosas de mi patria me fuera dado preferir un bien a todos los demás, un bien fundamental que de todos los del país fuera base y principio, y sin el que los demás bienes serían falaces e inseguros, ese sería el bien que yo prefiriera: yo quiero que la ley primera de nuestra república sea el culto de los cubanos a la dignidad plena del hombre. En la mejilla ha de sentir todo hombre verdadero el golpe que reciba cualquier mejilla de hombre: envilece a los pueblos desde la cuna el hábito de recurrir a camarillas personales, fomentadas por un interés notorio o encubierto, para la defensa de las libertades: sáquese a lucir, y a incendiar las almas, y a vibrar como el rayo, a la verdad, y síganla, libres, los hombres honrados. Levántese por sobre todas las cosas esta tierna consideración, este viril tributo de cada cubano a otro. Ni misterios, ni calumnias, ni tesón en desacreditar, ni largas y astutas preparaciones para el día funesto de la ambición. O la república tiene por base el carácter entero de cada uno de sus hijos, el hábito de trabajar con sus manos y pensar por sí propio, el ejercicio íntegro de sí y el respeto, como de honor de familia, al ejercicio íntegro de los demás; la pasión, en fin, por el decoro del hombre, o la república no vale una lágrima de nuestras mujeres ni una sola gota de sangre de nuestros bravos. Para verdades trabajamos, y no para sueños. Para libertar a los cubanos trabajamos, y no para acorralarlos. ¡Para ajustar en la paz y en la equidad los intereses y derechos de los habitantes leales de Cuba trabajamos, y no para erigir, a la boca del continente, de la república, la mayordomía espantada de Veintimilla, o la hacienda sangrienta de Rosas, o el Paraguay, lúgubre de Francia! ¡Mejor caer bajo los excesos del carácter imperfecto de nuestros compatriotas, que valerse del crédito adquirido con las armas de la guerra o las de la palabra que rebajarles el carácter! Este es mi único título a estos cariños, que han venido a tiempo a robustecer mis manos incansables en el servicio de la verdadera libertad. ¡Muérdanmelas los mismos a quienes anhelase yo levantar más, y ¡no miento! amaré la mordida, porque me viene de la furia de mi propia tierra, y porque por ella veré bravo y rebelde a un corazón cubano! ¡Unámonos, ante todo, en esta fe; juntemos las manos, en prenda de esa decisión, donde todos las vean, y donde no se olvida sin castigo; cerrémosle el paso a la república que no venga preparada por medios dignos del decoro del hombre, para el bien y la prosperidad de todos los cubanos! |
¡De todos los cubanos! Yo no sé qué misterio de ternura tiene esta dulcísima palabra, ni qué sabor tan puro sobre el de la palabra misma de hombre, que es ya tan bella, que si se le pronuncia como se debe, parece que es el aire como nimbo de oro, y es trono o cumbre de monte la naturaleza! Se dice cubano, y una dulzura como de suave hermandad se esparce por nuestras entrañas, y se abre sola la caja de nuestros ahorros, y nos apretamos para hacer un puesto más en la mesa, y echa las alas el corazón enamorado para amparar al que nació en la misma tierra que nosotros, aunque el pecado lo trastorne, o la ignorancia lo extravíe, o la ira lo enfurezca, o lo ensangriente el crimen! ¡Cómo que unos brazos divinos que no vemos nos aprietan a todos sobre un pecho en que todavía corre la sangre y se oye todavía, sollozar el corazón! Créese allá en nuestra patria, para darnos luego trabajo de piedad, créese, donde el dueño corrompido pudre cuanto mira, un alma cubana nueva, erizada y hostil, un alma hosca, distinta de aquella alma casera y magnánima de nuestros padres e hija natural de la miseria, que ve triunfar al vicio impune, y de la cultura inútil, que sólo halla empleo en la contemplación sorda de sí misma! ¡Acá, donde vigilamos por los ausentes, donde reponemos la casa que allá se nos cae encima, donde creamos lo que ha de reemplazar a lo que allí se nos destruye, acá no hay palabra que se asemeje más a la luz del amanecer, ni consuelo que se entre con más dicha por nuestro corazón, que esta palabra inefable y ardiente de cubano! |
¡Porque eso es esta ciudad, eso es la emigración cubana entera, eso es lo que venimos haciendo en estos años de trabajo sin ahorro, de familia sin gusto, de vida sin sabor, de muerte disimulada! ¡A la patria que allí se cae a pedazos y se ha quedado ciega de la podre, hay que llevar la patria piadosa y previsora que aquí se levanta! ¡A lo que queda de patria allí, mordido de todas partes por la gangrena que empieza a roer el corazón, hay que juntar la patria amiga donde hemos ido, acá en la soledad, acomodando el alma, con las manos firmes que pide el buen cariño, a las realidades todas, de afuera y de adentro, tan bien veladas allí en unos por la desesperación y en otros por el goce babilónico, que con ser grandes certezas y grandes esperanzas y grandes peligros, son, aun para los expertos, poco menos que desconocidas! ¿Pues qué saben allá de esta noche gloriosa de resurrección, de la fe determinada y metódica de nuestros espíritus, del acercamiento continuo y creciente de los cubanos de afuera, que los errores de los diez años y las veleidades naturales de Cuba, y otras causas maléficas no han logrado por fin dividir, sino allegar tan íntima y cariñosamente que no se ve sino un águila que sube, y un sol que va naciendo, y un ejército que avanza? ¿Qué saben allá de estos tratos sutiles, que nadie prepara ni puede detener, entre el país desesperado y los emigrados que esperan? ¿Qué saben de este carácter nuestro fortalecido, de tierra en tierra, por la prueba cruenta y el ejercicio diario? ¿Qué saben del pueblo liberal, y fiero, y trabajador, que vamos a llevarles? ¿Qué sabe el que agoniza en la noche, del que le espera con los brazos abiertos en la aurora? Cargar barcos puede cualquier cargador; y poner mecha al cañón cualquier artillero puede; pero no ha sido esa tarea menor, y de mero resultado y oportunidad, la tarea única de nuestro deber, sino la de evitar las consecuencias dañinas, y acelerar las felices, de la guerra próxima, e inevitable, e irla limpiando, como cabe en lo humano, del desamor y del descuido y de los celos que la pudiesen poner donde sin necesidad ni excusa nos pusieron la anterior, y disciplinar nuestras almas libres en el conocimiento y orden de los elementos reales de nuestro país, y en el trabajo que es el aire y el sol de la libertad, para que quepan en ella sin peligro, junto a las fuerzas creadoras de una situación nueva, aquellos residuos inevitables de las crisis revueltas que son necesarias para constituirlas. Y las manos nos dolerán más de una vez en la faena sublime, pero los muertos están mandando, y aconsejando, y vigilando, y los vivos los oyen, y los obedecen, y se oye en el viento ruido de ayudantes que pasan llevando órdenes, y de pabellones que se desplegan! ¡Unámonos, cubanos, en esta otra fe: con todos, y para todos: la guerra inevitable, de modo que la respete y la desee y la ayude la patria, y no nos la mate, en flor, por local o por personal o por incompleta, el enemigo: la revolución de justicia y de realidad, para el reconocimiento y la práctica franca de las libertades verdaderas. |
Ni los bravos de la guerra que me oyen tienen paces con estos análisis menudos de las cosas públicas, porque al entusiasta le parece crimen la tardanza misma de la sensatez en poner por obra el entusiasmo; ni nuestra mujer, que aquí oye atenta, sueña más que en volver a pisar la tierra propia, donde no ha de vivir su compañero, agrio como aquí vive y taciturno: ni el niño, hermano o hijo de mártires y de héroes, nutrido en sus leyendas, piensa en más que en lo hermoso de morir a caballo, peleando por el país, al pie de una palma! |
¡Es el sueño mío, es el sueño de todos; las palmas son novias que esperan: y hemos de poner la justicia tan alta como las palmas! Eso es lo que queríamos decir. A la guerra del arranque, que cayó en el desorden, ha de suceder, por insistencia de los males públicos, la guerra de la necesidad, que vendría floja y sin probabilidad de vencer, si no le diese su pujanza aquel amor inteligente y fuerte del derecho por donde las almas más ansiosas de él recogen de la sepultura el pabellón que dejaron caer, cansados del primer esfuerzo, los menos necesitados de justicia. Su derecho de hombres es lo que buscan los cubanos en su independencia; y la independencia se ha de buscar con alma entera de hombre. ¡Que Cuba, desolada, vuelve a nosotros los ojos! ¡Que los niños ensayan en los troncos de los. caminos la fuerza de sus brazos nuevos! ¡Que las guerras estallan, cuando hay causas para ella, de la impaciencia de un valiente o de un grano de maíz! ¡Que el alma cubana se está poniendo en fila, y se ven ya, como al alba, las masas confusas! ¡Que el enemigo, menos sorprendido hoy, menos interesado, no tiene en la tierra los caudales que hubo de defender la vez pasada, ni hemos de entretenemos tanto como entonces en dimes y diretes de localidad, ni en competencias de mando, ni en envidias de pueblo, ni en esperanzas locas! ¡Que afuera tenemos el amor en el corazón, los ojos en la costa, la mano en la América, y el alma al cinto! ¿Pues quién no lee en el aire todo eso con letras de luz? Y con letras de luz se ha de leer que no buscamos, en este nuevo sacrificio, meras formas, ni la perpetuación del alma colonial en nuestra vida, con novedades de uniforme yankee, sino la esencia y realidad de un país republicano nuestro, sin miedo canijo de unos a la expresión saludable de todas las ideas y el empleo honrado de todas las energías,-ni de parte de otros aquel robo al hombre que consiste en pretender imperar en nombre de la libertad por violencias en que se prescinde del derecho de los demás a las garantías y los métodos de ella. Por supuesto, que se nos echarán atrás los petimetres de la política, que olvidan como es necesario contar con lo que no se puede suprimir,-y que se pondrá a refunfuñar el patriotismo de polvos de arroz, so pretexto de que los pueblos. en el sudor de la creación, no dan siempre olor de clavellina. ¿Y qué le hemos de hacer? ¡Sin los gusanos que fabrican la tierra no podrían hacerse palacios suntuosos! En la verdad hay que entrar con la camisa al codo, como entra en la res el carnicero. Todo lo verdadero es santo, aunque no huela a clavellina. Todo tiene la entraña fea y sangrienta: es fango en las artesas el oro en que el artista talla luego sus joyas maravillosas; de lo fétido de la vida saca almíbar la fruta y colores la flor; nace el hombre del dolor y la tiniebla del seno maternal, y del alarido y el desgarramiento sublime: y las fuerzas magníficas y corrientes de fuego que en el horno del sol se precipitan y confunden, no parecen de lejos a los ojos humanos sino manchas! ¡Paso a los que no tienen miedo a la luz: caridad para los que tiemblan de sus rayos! |
Ni vería yo esa bandera con cariño, hecho como estoy a saber que lo más santo se toma como instrumento del interés por los triunfadores audaces de este mundo, si no creyera que en sus pliegues ha de venir la libertad entera, cuando el reconocimiento cordial del decoro de cada cubano, y de los modos equitativos de ajustar los conflictos de sus intereses, quite razón a aquellos consejeros de métodos confusos que sólo tienen de terribles lo que tiene de terca la pasión que se niega a reconocer cuánto hay en sus demandas de equitativo y justiciero. ¡Clávese la lengua del adulador popular, y cuelgue al viento como banderola de ignominia, donde sea castigo de los que adelantan sus ambiciones azuzando en vano la pena de los que padecen, u ocultándoles verdades esenciales de su problema, o levantándoles la ira:-y al lado de la lengua de los aduladores, clávese la de los que se niegan a la justicia! |
¡La lengua del adulador se clave donde todos la vean,- y la de los que toman por pretexto las exageraciones a que tiene derecho la ignorancia, y que no puede acusar quien no ponga todos los medios de hacer cesar la ignorancia, para negarse a acatar lo que hay de dolor de hombre y de agonía sagrada en las exageraciones que es más cómodo excomulgar, de toga y birrete, que estudiar, lloroso el corazón, con el dolor humano hasta los codos! En el presidio de la vida es necesario poner, para que aprendan justicia, a los jueces de la vida. El que juzgue de todo, que lo conozca todo. No juzgue de prisa el de arriba, ni por un lado: no juzgue el de abajo por un lado ni de prisa. No censure el celoso el bienestar que envidia en secreto. No desconozca el pudiente el poema conmovedor, y el sacrificio cruento, del que se tiene que cavar el pan que come; de su sufrida compañera, coronada de corona que el injusto no ve; de los hijos que no tienen lo que tienen los hijos de los otros por el mundo! ¡Valiera más que no se desplegara esa bandera de su mástil, si no hubiera de amparar por igual a todas las cabezas! |
Muy mal conoce nuestra patria, la conoce muy mal, quien no sepa que hay en ella, como alma de lo presente y garantía de lo futuro, una enérgica suma de aquella libertad original que cría el hombre en sí, del jugo de la tierra y de las penas que ve, y de su idea propia y de su naturaleza altiva. Con esta libertad real y pujante, que sólo puede pecar por la falta de la cultura que es fácil poner en ella, han de contar más los políticos de carne y hueso que con esa libertad de aficionados que aprenden en los catecismos de Francia o de Inglaterra, los políticos de papel. Hombres somos, y no vamos a querer gobiernos de tijeras y de figurines, sino trabajo de nuestras cabezas, sacado del molde de nuestro país. Muy mal conoce a nuestro pueblo quien no observe en él como a la par de este ímpetu nativo que lo levanta para la guerra y no lo dejará dormir en la paz, se ha criado con la experiencia y el estudio, y cierta ciencia clara que da nuestra tierra hermosa, un cúmulo de fuerzas de orden, humanas y cultas,-una falange de inteligencias plenas, fecundadas por el amor al hombre, sin el cual la inteligencia no es más que azote y crimen,-una concordia tan íntima, venida del dolor común, entre los cubanos de derecho natural, sin historia y sin libros, y los cubanos que han puesto en el estudio la pasión que no podían poner en la elaboración de la patria nueva,-una hermandad tan ferviente entre los esclavos ínfimos de la vida y los esclavos de una tiranía aniquiladora,-que por este amor unánime y abrasante de justicia de los de un oficio y los de otro; por este ardor de humanidad igualmente sincero en los que llevan el cuello alto, porque tienen alta la nuca natural, y los que los llevan bajo, porque la moda manda lucir el cuello hermoso; por esta patria vehemente en que se reúnen con iguales sueños, y con igual honradez, aquellos a quienes pudiese divorciar el diverso estado de cultura-sujetará nuestra Cuba, libre en la armonía de la equidad, la mano de la colonia que no dejará a su hora de venírsenos encima, disfrazada con el guante de la república. ¡Y cuidado, cubanos, que hay guantes tan bien imitados que no se diferencian de la mano natural! A todo el que venga a pedir poder, cubanos, hay que decirle a la luz, donde se vea la mano bien: ¿mano o guante?-Pero no hay que temer en verdad, ni hay que regañar. Eso mismo que hemos de combatir, eso mismo nos es necesario. Tan necesario es a los pueblos lo que sujeta como lo que empuja: tan necesario es en la casa de familia el padre, siempre activo, como la madre, siempre temerosa. Hay política hombre y política mujer. ¿Locomotora con caldera que la haga andar, y sin freno que la detenga a tiempo? Es preciso, en cosas de pueblos, llevar el freno en una mano, y la caldera en la otra. Y por ahí padecen los pueblos: por el exceso de freno, y por el exceso de caldera. |
¿A qué es, pues, a lo que habremos de temer? ¿Al decaimiento de nuestro entusiasmo, a lo ilusorio de nuestra fe, al poco número de los infatigables, al desorden de nuestras esperanzas? Pues miro yo a esta sala, y siento firme y estable la tierra bajo mis pies, y digo: “Mienten.” Y miro a mi corazón, que no es más que un corazón cubano, y digo:- `Mienten.” |
¿Tendremos miedo a los hábitos de autoridad contraídos en la guerra, y en cierto modo ungidos por el desdén diario de la muerte? Pues no conozco yo lo que tiene de brava el alma cubana, y de sagaz y experimentado el juicio de Cuba, y lo que habrían de contar las autoridades viejas con las autoridades vírgenes, y aquel admirable concierto de pensamiento republicano y la acción heroica que honra, sin excepciones apenas, a los cubanos que cargaron armas; o, como que conozco todo eso, al que diga que de nuestros veteranos hay que esperar ese amor criminal de sí, ese postergamiento de la patria a su interés, esa traición inicua a su país, le digo: -“!Mienten!” |
¿O nos ha de echar atrás el miedo a las tribulaciones de la guerra, azuzado por gente impura que está a paga del gobierno español, el miedo a andar descalzo, que es un modo de andar ya muy común en Cuba, porque entre los ladrones y los que los ayudan, ya no tienen en Cuba zapatos sino los cómplices y los ladrones? ¡Pues como yo sé que el mismo que escribe un libro para atizar el miedo a la guerra, dijo en versos, muy buenos por cierto, que la jutía basta a todas las necesidades del campo en Cuba, y sé que Cuba está otra vez llena de jutías, me vuelvo a los que nos quieren asustar con el sacrificio mismo que apetecemos, y les digo:-“Mienten”. |
¿Al que más ha sufrido en Cuba por la privación de la libertad le tendremos miedo, en el país donde la sangre que derramó por ella se la ha hecho amar demasiado para amenazarla? ¿Le tendremos miedo al negro, al negro generoso, al hermano negro, que en los cubanos que murieron por el ha perdonado para siempre a los cubanos que todavía lo maltratan? Pues yo se de manos de negro que están más dentro de la virtud que las de blanco alguno que conozco: yo sé del amor negro a la libertad sensata, que sólo en la intensidad mayor y natural y útil se diferencia del amor a la libertad del cubano blanco: yo sé que el negro ha erguido el cuerpo noble, y está poniéndose de columna firme de las libertades patrias. Otros le teman: yo lo amo: a quien diga mal de él, me lo desconozca, le digo a boca llena:-“Mienten”. |
¿Al español en Cuba habremos de temer? ¿Al español armado, que no nos pudo vencer por su valor, sino por nuestras envidias, nada más que por nuestras envidias? ¿Al español que tiene en el Sardinero o en la Rambla su caudal y se irá con su caudal, que es su única patria; o al que lo tiene en Cuba, por apego a la tierra o por la raíz de los hijos, y por miedo al castigo opondrá poca resistencia, y por sus hijos? ¿Al español llano, que ama la libertad como la amamos nosotros, y busca con nosotros una patria en la justicia, superior al apego a una patria incapaz e injusta, al español que padece, junto a su mujer cubana, del desamparo irremediable y el mísero porvenir de los hijos que le nacieron con el estigma de hambre y persecución, con el decreto de destierro en su propio país, con la sentencia de muerte en vida con que vienen al mundo los cubanos? ¿Temer al español liberal y bueno, a mi padre valenciano, a mi fiador montañés, al gaditano que me velaba el sueño febril, al catalán que juraba y votaba porque no quería el criollo huir con sus vestidos, al malagueño que saca en sus espaldas del hospital al cubano impotente, al gallego que muere en la nieve extranjera, al volver de dejar el pan del mes en la casa del general en jefe de la guerra cubana? ¡Por la libertad del hombre se pelea en Cuba, y hay muchos españoles que aman la libertad! ¡A estos españoles los atacarán otros: yo los ampararé toda mi vida! A los que no saben que esos españoles son otros tantos cubanos, les decimos: “¡Mienten!” |
¿Y temeremos a la nieve extranjera? Los que no saben bregar con sus manos en la vida, o miden el corazón de los demás por su corazón espantadizo, o creen que los pueblos son meros tableros de ajedrez, o están tan criados en la esclavitud que necesitan quien les sujete el estribo para salir de ella, esos buscarán en un pueblo de componentes extraños y hostiles la república que sólo asegura el bienestar cuando se le administra en acuerdo con el carácter propio, y de modo que se acendre y realce. A quien crea que falta a los cubanos coraje y capacidad para vivir por sí en la tierra creada por su valor, le decimos: “Mienten”. |
Y a los lindoros que desdeñan hoy esta revolución santa cuyos guías y mártires primeros fueron hombres nacidos en el mármol y seda de la fortuna, esta santa revolución que en el espacio más breve hermanó, por la virtud redentora de las guerras justas, al primogénito heroico y al campesino sin heredad, al dueño de hombres y a su esclavos; a los olimpos de pisapapel, que bajan de la trípode calumniosa para preguntar aterrados, y ya con ánimos de sumisión, si ha puesto el pie en tierra este peleador o el otro, a fin de poner en paz el alma con quien puede mañana distribuir el poder; a los alzacolas que fomentan a sabiendas, el engaño de los que creen este magnífico movimiento de almas, esta idea encendida de la redención decorosa, este deseo triste y firme de la guerra inevitable, no es más que el tesón de un rezagado indómito, o la correría de un general sin empleo, o la algazara de los que no gozan de una riqueza que sólo se puede mantener por la complicidad con el deshonor, o la amenaza de una turba obrera, con odio por corazón y papeluchos por sesos, que irá, como del cabestro, por donde la quiera llevar el primer ambicioso que la adule, o el primer déspota encubierto que le pase por los ojos la bandera,-a lindoros, o a olimpos, y a alzacolas, -les diremos: -“Mienten.” ¡Esta es la turba obrera, el arca de nuestra alianza, el tahalí, bordado de mano de mujer, donde se ha guardado la espada de Cuba, el arenal redentor donde se edifica, y se perdona, y se prevee, y se ama! |
¡Basta, basta de meras palabras! Para lisonjearnos no estamos aquí, sino para palparnos los corazones, y ver que viven sanos, y que pueden; para irnos enseñando a los desesperanzados, a los desbandados, a los melancólicos, en nuestra fuerza de idea y de acción, en la virtud probada que asegura la dicha por venir, en nuestro tamaño real, que no es de presuntuoso, ni de teorizante, ni de salmodista, ni de melómano, ni de caza nubes, ni de pordiosero. Ya somos unos, y podemos ir al fin: conocemos el mal, y veremos de no recaer; a puro amor y paciencia hemos congregado lo que quedó disperso, y convertido en orden entusiasta lo que era, después de la catástrofe, desconcierto receloso; hemos procurado la buena fe, y creemos haber logrado, suprimir o reprimir los vicios que causaron nuestra derrota, y allegar con modos sinceros y para fin durable, los elementos conocidos o esbozados, con cuya unión se puede llevar la guerra inminente al triunfo. ¡Ahora, a formar filas! ¡Con esperar, allá en lo hondo del alma, no se fundan pueblos! Delante de mí vuelvo a ver los pabellones, dando órdenes; y me parece que el mar que de allá viene, cargado de esperanza y de dolor, rompe la valla de la tierra ajena en que vivimos, y revienta contra esas puertas sus olas alborotadas… ¡Allá está, sofocada en los brazos que nos la estrujan y corrompen! ¡Allá está, herida en la frente, herida en el corazón, presidiendo, atada a la silla de tortura, el banquete donde las bocamangas de galón de oro ponen el vino del veneno en los labios de los hijos que se han olvidado de sus padres! ¡Y el padre murió cara a cara al alférez, y el hijo va, de brazos con el alférez, a podrirse a la orgía! ¡Basta de meras palabras! De las entrañas desgarradas levantemos un amor inextinguible por la patria sin la que ningún hombre vive feliz, ni el bueno, ni el malo. Allí está, de allí nos llama, se la oye gemir, nos la violan y nos la befan y nos la gangrenan a nuestro ojos, nos corrompen y nos despedazan a la madre de nuestro corazón! ¡Pues alcémonos de una vez, de una arremetida última de los corazones, alcémonos de manera que no corra peligro la libertad en el triunfo, por el desorden o por la torpeza o por la impaciencia en prepararla; alcémonos, para la república verdadera, los que por nuestra pasión por el derecho y por nuestro hábito del trabajo sabremos mantenerla; alcémonos para darle tumba a los héroes cuyo espíritu vaga por el mundo avergonzado y solitario; alcémonos para que algún día tengan tumba nuestros hijos! Y pongamos alrededor de la estrella, en la bandera nueva, esta fórmula del amor triunfante: “Con todos, y para el bien de todos”. |
